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Orgulho LGBT: afeto e acolhimento transformam a vida de gays, lésbicas e pessoas trans na velhice

Conhe?a histórias que mostram que o acolhimento e a cria??o de uma rede de afeto podem transformar positivamente a vivência de pessoas LGBT+ na chegada à terceira idade
Envelhecimento das pessoas LGBT+ no Brasil ainda é um processo invisível e pouco discutido, dizem ativista e especialistas Foto: Freepik
Envelhecimento das pessoas LGBT+ no Brasil ainda é um processo invisível e pouco discutido, dizem ativista e especialistas Foto: Freepik

Denise Taynah tem 71 anos de idade, mas conta que só conseguiu passar a viver 24 horas por dia como ela mesma há 12 anos. O processo de transforma??o, como a própria define, se iniciou no início dos anos 2000, quando já aos 50 anos ela entrou para um grupo virtual de cross-dressers, passou a participar de encontros e da militancia no movimento LGBT+ no Rio.

— Eu vivi dentro de um armário até 2001 — conta Denise. Depois de alguns anos passando finais de semana ou indo a eventos “en femme” (como mulher, em tradu??o do francês), ela decidiu que aquilo n?o era suficiente. — Chegou uma época que n?o me satisfazia só ficar durante algumas horas montada e voltar a vida normal. Isso aconteceu durante um tempo, mas eu sentia necessidade de ficar 24 horas como mulher. Em 2008, participei da Conferência Nacional LGBT em Brasília “de Denise” e depois de um programa contra a dengue no Rio. Foi o ponto de virada — afirma.

Denise foi acolhida pelos sete filhos e por todos os amigos e abra?ou a nova vida quase chegando aos 60 anos, e diz n?o ter muitas queixas da terceira idade.

— A Denise sempre existiu dentro de mim, mas eu n?o aceitava. Tinha muitas dúvidas. Minha m?e me criou de uma forma muito religiosa. Eu ia à missa todo domingo e confessava que vestia as roupas da minha m?e e da minha irm? para o padre — conta Denise, que hoje integra a Superintendência de Políticas Públicas LGBT do governo do estado do Rio.

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— Tive mais aceita??o fazendo a minha transforma??o mais velha. Se fizesse isso mais cedo, talvez n?o seria assim. Tem muitas pessoas trans que n?o s?o acolhidas pela família e acabam sendo expulsas de casa quando falam da sua identidade — conta.

A experiência positiva de Denise ainda pode ser considerada uma exce??o. A fotógrafa Yone Lindgren só se deu conta de que o envelhecimento das pessoas LGBT+ no Brasil ainda era um processo invisível e pouco discutido quando come?ou a perceber seus colegas de movimento chegando a terceira idade e enfrentando um sem número de dificuldades que n?o haviam antecipado.

— Encontrei um conhecido que era muito ativo no movimento, fotógrafo, vivendo em situa??o de rua depois de chegar a terceira idade. Uma outra amiga, lésbica, está vivendo com um sobrinho na quarentena, e ele n?o a permite nem falar com amigas por telefone — conta a ativista.

Hoje, aos 64 anos e aposentada, Yone dedicou — e ainda dedica — boa parte da sua vida ao ativismo. Ela foi uma das fundadoras do Somos, o primeiro grupo de defesa dos direitos LGBT+ no Brasil, criado em 1978, e desde 2004 atua na coordena??o de política nacional da Articula??o Brasileira de Lésbicas.

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— Nós n?o tínhamos exemplos de pessoas idosas LGBTs no Brasil. Conforme fui vendo o envelhecimento de pessoas que eu conhecia, fui pensando sobre isso. As pessoas da minha gera??o, quando iam se tocando com envelhecimento, iam saindo do movimento. A falta de acesso à saúde ou de uma rede de apoio acaba levando as pessoas de volta ao armário — afirma.

Lésbica assumida desde sempre”, Yone conta que sempre contou com o apoio de sua família e, após o término do seu último casamento, voltou a morar com a irm? e o cunhado, com quem vive até hoje.

— Sempre fui bem acolhida, mas sou uma das poucas que pode falar isso. Muita gente tem que encarar o abandono familiar, ou ent?o tem que esconder a própria identidade para se readequar.

Primeiro encontro da Eternamente Sou no Rio, realizado no início de mar?o Foto: veri-vg / Divulga??o
Primeiro encontro da Eternamente Sou no Rio, realizado no início de mar?o Foto: veri-vg / Divulga??o

Como conta com a própria rede de apoio familiar e financeira, Yone dedica parte do seu tempo aqueles membros da comunidade LGBT+ que n?o tem. Entre as poucas saídas para ir ao mercado ou a farmácia permitidas pela pandemia, ela atua como voluntária na Eternamente Sou, organiza??o pioneira no trabalho com idosos LGBT+ fundada em 2017 em S?o Paulo e que come?ou suas atividades logo antes de as medidas de isolamento social serem adotadas no Rio de Janeiro, em mar?o.

— Existe um medo entre a maioria dos LGBTs, de se entender sozinho na velhice, sem nenhum acolhimento da família, do Estado ou de outras institui??es. Depois das elei??es 2018, percebendo que o ambiente estava ficando mais hostil para mim, que sou jovem, fiquei pensando os LGBTs mais velhos e pedi para replicar o trabalho da Eternamente Sou aqui — afirma o publicitário Marcos Correa, que coordena as atividades da organiza??o no Rio.

A primeira roda de conversa do grupo acontece no dia 7 de mar?o, mas os próximos seguintes tiveram que ser adiados em fun??o das medidas de isolamento social. Enquanto a pandemia n?o permite a retomada dos encontros presenciais, o grupo mantém o contato pelo Whatsapp. A ONG tem mantido uma programa??o diária, com discuss?es, exibi??es de filmes, lives e rodas de conversa online mediadas por psicólogos e ativistas.

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Além disso, um grupo de voluntários, da qual Yone faz parte, liga semanalmente para os participantes que est?o vivendo sozinhos ou foram obrigados a voltar a viver com as famílias neste período, por quest?es financeiras ou pela necessidade de se proteger da Covid-19.

— Estamos aos poucos mapeando as situa??es de vulnerabilidade. Temos um grupo de quase cem pessoas que mantém contato diário e monitoramos cerca de 35 idosos. Esse contato online também permitiu uma conex?o com o pessoal de S?o Paulo, Belo Horizonte e Florianópolis, onde a Eternamente Sou também atua — conta Marcos.

Acolhimento virtual

Entre as participantes está Tetê Tauille, de 67 anos. Ela morava sozinha no Rio de Janeiro havia dez anos, depois do rompimento do seu último relacionamento, mas está passando a quarentena com a filha, em Búzios.

Tetê conta lhe que faltavam referências positivas de mulheres lésbicas na juventude, o que fez com que ela só passasse a se relacionar afetivamente após os 20 anos de idade. Para a família, assumiu-se lésbica quando saiu da casa dos pais para casar com a sua primeira esposa.

— Até uns 20 anos, eu n?o tive nenhum relacionamento. Sabia do meu desejo de estar com uma mulher, mas eu n?o aceitava aquilo como normal. A aceita??o pessoal é mais difícil. A família soube quando eu casei, mas aceitou numa boa. Sei que sou muito privilegiada por isso — conta.

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Em meio a sua rotina cheia de atividades, Tetê participou do primeiro encontro da Eternamente Sou em mar?o e passou a acompanhar as atividades da organiza??o promovidas durante a quarentena.

Yone Lindgren, 64 anos, e Denise Taynah, 71 anos, participam do primeiro evento da Eternamente Sou no Rio de Janeiro, promovido no início de mar?o Foto: veri-vg / Divulga??o
Yone Lindgren, 64 anos, e Denise Taynah, 71 anos, participam do primeiro evento da Eternamente Sou no Rio de Janeiro, promovido no início de mar?o Foto: veri-vg / Divulga??o

— Eu nunca fiz parte do movimento, ent?o nunca tive tantos amigos LGBTs quanto agora. S?o pessoas diferentes, com todo tipo de vivência. Desde quem lutou a vida inteira no movimento, até quem viveu até pouco tempo um casamento heterossexual e só depois dos 50 assumiu-se gay — diz.

Para Elvis (nome alterado a pedido do entrevistado), 54 anos, o grupo também tem sido uma forma de construir novas rela??es, embora o designer sinta falta da possibilidade de conhecer e conversar com as pessoas ao vivo.

— Na sociedade, ser idoso é difícil e quando se é LGBT+ a situa??o é ainda pior. Eu ainda n?o cheguei lá, mas é algo que me preocupa. Eu n?o tenho uma família, ent?o, no futuro, vou ficar sozinho. Se vou ficar sozinho, quero ter a melhor qualidade de vida possível — conta o programador visual.

Elvis mora sozinho no Rio, mas tem mantido contado com o namorado durante a pandemia. Com pais adotivos mortos há 20 anos e a m?e biológica falecida há 4, os seus únicos contatos familiares s?o um tio e uma irm? mais velha, com quem ele n?o fala abertamente sobre sua sexualidade.

— Fazer parte do grupo, para mim, abre a possibilidade de eu conhecer pessoas e construir uma rede de apoio. Em um determinado momento da vida, as pessoas esquecem de manter seus relacionamentos. Mas eu vejo que o projeto estimula que as pessoas criem rela??es fora da casinha que elas costumam viver — afirma.

Políticas públicas

Além da forma??o de um grupo e de atividades de acolhimento, a Eternamente Sou atua na elabora??o de dados, pesquisa e de propostas de política públicas voltadas para a popula??o LGBT+ idosa.

— A ideia é garantir uma velhice digna para esse público — conta Marcos, afirmando que a organiza??o tem mantido um diálogo com o governo do estado e com a prefeitura. Um dos compromissos estabelecidos é a cria??o de ala para idosos LGBT+ na Institui??o de Longa Permanência de Idosos (ILPI), que deve ser inaugurada em Vassouras e mantida pelo governo estadual.

Em S?o Paulo, a ONG já atendeu diretamente 400 idosos LGBT+ desde a sua cria??o, em 2017, e pretende inaugurar um espa?o próprio de convivência. Além disso, a entidade promove cursos de capacita??o para cuidadores de idosos e profissionais da saúde tratarem de maneira adequada a diversidade sexual na terceira idade.

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— Essas pessoas vivem uma dupla invisibilidade imposta pela sociedade. O Brasil tem milhares de idosos que n?o têm um sistema público que atenda todas as suas demandas, e no pouco que existe, n?o há familiaridade ou preparo para lidar com a diversidade sexual — afirma Rogério Pedro da Silva, fundador da ONG.

Para ele, o próprio movimento LGBT+ ainda é negligente com seus mais velhos. Yone Lindgren faz coro para sua fala:

— Falta ao movimento LGBT+ olhar para os seus mais velhos. Muita gente que n?o acordou para isso.

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