Para fiscal da Vigilancia Sanitária, n?o cabe mais no Brasil o 'você sabe com quem está falando?'

Flávio Augusto Soares Gra?a acredita que ainda assim falta uma "maior conscientiza??o da popula??o quanto ao seu papel", durante a pandemia
Superintendente fiscal Flávio Gra?a durante fiscaliza??o Foto: Pedro Teixeira 06-07-2020 / Agência O Globo
Superintendente fiscal Flávio Gra?a durante fiscaliza??o Foto: Pedro Teixeira 06-07-2020 / Agência O Globo

RIO — Na Prefeitura desde 2017, o superintendente de Educa??o e Projetos da Vigilancia Sanitária, Flávio Augusto Soares Gra?a, 52 anos, diz que as agress?es têm se intensificado nos últimos dias nas a??es de fiscaliza??o para o cumprimento das regras de flexibiliza??o da reabertura da cidade. Para Flávio, tem faltado uma "maior conscientiza??o da popula??o quanto ao seu papel", durante a pandemia. Mas, segundo ele, a popula??o já entendeu que "n?o cabe mais no Brasil o 'você sabe com quem está falando?'" — destaca Flávio, ao se referir ao engenheiro e sua mulher que, no último sábado, cobraram explica??es e o agrediram verbalmente, em frente a um bar na Barra da Tijuca. Pós-doutor em medicina veterinária, casado e pai de dois filhos, Flávio concedeu entrevista ao GLOBO. Confira:

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Como foi naquele dia?

Ao chegar ao local, nós encontramos uma grande aglomera??o no estabelecimento. Eu sempre registro a a??o com um celular,  para dar legitimidade. Quando passei a gravar, as pessoas come?aram a se levantar. N?o só aquela mo?a, mas outro rapaz. Eles vieram e disseram que eu n?o tinha direito de gravá-los e pediram direito à imagem. Logo em seguida, falaram que iriam anotar o meu nome.

Fiscais da Vigilancia Sanitária s?o intimidados e agredidos verbalmente durante fiscaliza??o na Barra da Tijuca. Agress?o aconteceu na noite do último sábado quando agentes fiscalizavam estabelecimentos que descumpriram as regras durante a pandemia do novo coronavírus
Fiscais da Vigilancia Sanitária s?o intimidados e agredidos verbalmente durante fiscaliza??o na Barra da Tijuca. Agress?o aconteceu na noite do último sábado quando agentes fiscalizavam estabelecimentos que descumpriram as regras durante a pandemia do novo coronavírus

O que o senhor fez?

Posteriormente, come?aram a falar palavr?es, todos muito agressivos. Aquelas agress?es n?o me atingiram, porque ali estou representando o estado para proteger a vida deles. Mas quando um deles chegou com o celular perto do nariz do repórter e iria agredi-lo, eu disse que, se ele encostasse no jornalista, eu iria dar voz de pris?o e levá-lo para a delegacia.

Alguém do estabelecimento falou alguma coisa?

Um rapaz apareceu e afirmou que era um dos advogados (do espa?o), tentando nos intimidar, e disse que era para parar a inspe??o. Eu disse que n?o iríamos parar de fiscalizar. Ent?o, ele foi aos PMs que nos ajudavam e pediu para me levarem para a delegacia. Naquele instante, ele se apresentou como delegado. Os militares disseram que a Vigilancia Sanitária n?o estava fazendo nada de errado e só estava cumprindo a legisla??o.

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Como avaliou a fala do casal?

N?o cabe mais no Brasil o “você sabe com quem está falando?”. Isso está ficando cada vez mais banido. Todo cidad?o contribui com seus impostos para justamente nós o protegermos. Esse foi o princípio da cidadania que eles n?o exerceram. Ela achou que cidad?o é ofensa e n?o é. Quando eles falam aquilo, n?o nos atingem. Todos s?o formados e com curso superior. Ficou feio para ela, para a imagem do carioca. Fica ruim para o estabelecimento, porque ele n?o representa a maioria dos lugares que sofreu tanto pela pandemia. Uma classe que foi arrasada, e agora muitos tentam retornar. Aquilo mancha a categoria.

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Quando chegam no estabelecimento e agridem os fiscais, o que é feito?

Temos um trabalho prévio psicológico com todos os fiscais. Lembrando: estamos ali representando uma institui??o, o poder público. Qualquer tipo de agress?o, (n?o levamos) para o pessoal.  A gente sai de casa sempre com esse pensamento para ter calma e tranquilidade. O nosso objetivo é prevenir os riscos da saúde. Quem,  por acaso, impedir o poder público de fazer esse papel, pela lei, pedimos o apoio da for?a policial.

No momento da agress?o, seja física ou verbal, o que passa pela sua cabe?a? Existe uma irrita??o?

N?o. Esse tipo de agress?o n?o consegue me desestabilizar. Antes da agress?o que foi veiculada na TV aconteceram outras antes. Dois rapazes, antes daquilo, foram mais agressivos. Pensamos que iríamos ser agredidos. Eles foram muito mais violentos. A Guarda (Municipal) teve que se portar de uma maneira mais incisiva para coibir a a??o. Eu até falei: 'vocês se preparem porque eu acho que as coisas v?o chegar as vias de fato e v?o agredir a gente'. Ficamos com medo. As pessoas fazem isso para desvirtuar o foco. Se a situa??o for incontrolável, a gente se retira e pede apoio maior da for?a policial.

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O que você faz para manter a tranquilidade nessas horas?

Sou professor e há mais de 20 anos convivo com jovens. A gente sabe que há algumas situa??es que temos que mostrar autoridade. Eu falo com todos os agentes para sempre manter a calma e n?o se igualar a outra pessoa. Ontem, eu até chamei a pessoa de cidad?o e ela se ofendeu. Queremos que todos sejam cidad?os com a no??o de seus direitos e deveres. Cidad?o n?o pode ser pejorativo e n?o é uma ofensa. Cidad?o é um elogio. A Vigilancia sempre será um obstáculo para o mau fornecedor de produtos e alimentos.

Você disse que n?o leva as agress?es para o pessoal. Caso os agressores de sábado te pedissem desculpas, estariam pedindo para o Flávio ou para o estado?

Para o estado. O Flávio n?o guardou nada, nenhum rancor. Entendemos que, nós servidores públicos, estamos representando o estado. O poder público. E, nesse momento, as pessoas que se sentem contrariadas com a lei v?o xingar, gritar, mas n?o é pessoal. N?o é contra nós, e sim o que representamos.

Como você avalia a fiscaliza??o da Vigilancia Sanitária neste final de semana?

Ela tem um caráter exemplar. Mostra para os outros mal intencionados que a vigilancia vai chegar até eles. Mas também sei que a maioria desse segmento está se comportando de maneira adequada.

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No final de semana houve registro de aglomera??o em vários pontos da cidade. Faltou fiscaliza??o?

N?o. N?o faltou. O que ainda está faltando é a maior conscientiza??o da popula??o quanto ao seu papel. Nunca vamos conseguir ter um fiscal para cada estabelecimento. Todos têm que saber qual é o seu papel, com o intuito de sairmos dessa pandemia.

Haverá alguma mudan?a na fiscaliza??o?

N?o. Elas v?o continuar. Os comboios v?o continuar com o apoio da Guarda (Municipal) e da PM rodando todos os bairros da cidade. Seja na Zona Norte, Oeste ou Sul. As a??es n?o ser?o apenas em pontos de maior poder aquisitivo.

A partir do próximo dia 10 haverá nova flexibiliza??o das regras. Haverá uma fiscaliza??o maior?

A flexibiliza??o n?o será total nas praias. Os barraqueiros ser?o proibidos de fornecerem barracas e cadeiras para evitar o compartilhamento desses equipamentos. Vamos continuar verificando se as pessoas est?o fazendo a higieniza??o correta. Cada etapa é um desafio. Mas entendemos esse desafio.

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Ent?o, a Prefeitura n?o pensa em voltar atrás em rela??o à flexibiliza??o?

Esse é um pensamento que sempre deve estar na nossa mente. A responsabilidade da Prefeitura, monitorando diariamente os indicadores. Eles s?o monitorados diariamente para que, ao menor sinal de aumento significativo da curva, pararmos — e n?o adiantar a fase seguinte. Ou até mesmo, retroceder, se necessário. O que seria péssimo para toda a popula??o. Se todo mundo tem medo de uma nova quarentena, esse é o momento de clamarmos a participa??o de todos. Pedimos essa ajuda.

 

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