‘Meu pai é procurador, você vai perder seu emprego’, ouviu outra fiscal da Vigilancia que sofreu intimida??o em bar?

Episódio ocorreu também na Barra da Tijuca, enquanto clientes vaiavam a equipe?
Os fiscais da Vigilancia Sanitária durante a opera??o em bar nesta sexta-feira Foto: Reprodu??o redes sociais
Os fiscais da Vigilancia Sanitária durante a opera??o em bar nesta sexta-feira Foto: Reprodu??o redes sociais

RIO — Quando o público de um bar na Rua Olégario Maciel, na Barra da Tijuca, Zona Oeste, come?ou a entoar o canto “Eu n?o vou embora”,  na noite da último sábado, a assistente de coordena??o de fiscaliza??o da Vigilancia  Sanitária Jane Loureiro, de 54 anos, contou que ficou abalada, mas procurou manter a calma e continuar a inspe??o. Ela estava à frente de uma equipe de quatro profissionais, além da prote??o de guardas municipais. No bar, havia cerca de 50 pessoas.

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— Fui amea?ada por um que disse que o pai era procurador e que estava vendo meu nome no colete e que ia me demitir: “meu pai é procurador, você vai perder esse seu empreguinho”. Depois, fizeram um coro me xingando. Eu fiquei muito nervosa. Imagina um grupo grande de pessoas te xingando. é constrangedor, triste. Me mantive abalada, mas tranquila — descreve ela, ao relembrar. — (Ofensas) de uma classe abastada, que a gente acha que tem respeito e educa??o.

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Entoando os versos
Entoando os versos "eu n?o vou embora", os frequentadores de um bar na Avenida Olegário Maciel, na Barra, n?o se intimidaram com a fiscaliza??o da Vigilancia Sanitária na última sexta-feira, dia 3. E continuaram sem máscaras, indo contra as recomenda??es para reabertura de bares e restaurantes para enfrentamento do novo coronavírus.

 

No bar inspecionado, a agente viu muitas irregularidades, como mesas juntas no lado externo do estabelecimento, muita gente ao redor e boa parte do público sem máscara. Em um primeiro momento, interpelou o gerente, que garantiu que iria controlar a situa??o. Mas, passado um tempo e com os pontos de aglomera??o ainda existentes, foi obrigada a interditar o bar. Pediu ent?o que o servi?o da cozinha fosse encerrado para que o lugar fechasse. Quando as contas de cada mesa come?aram a ser pagas, iniciaram-se os ataques:

— Quando os gar?ons se aproximaram das mesas informando que o bar iria fechar, eles come?aram a se revoltar. Aí come?ou o coro ofensivo a vir para cima da gente, falando que o que fazíamos era errado e tirava o emprego das pessoas. Falei que meu objetivo era garantir a saúde das pessoas e que n?o era permitido concentra??o. E ninguém estava de máscara — conta Jane.

Independentemente dos xingamentos que recebeu, lá ficou, até que as mesas fossem recolhidas, na noite deste último sábado. Indagada sobre quais ofensas ouviu, ela responde de forma categórica:

— A maneira com a qual se ofende uma mulher — disse ela.

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Também no sábado, o superintendente Flávio Gra?a, sofreu ataques de um casal durante uma fiscaliza??o em um bar que n?o cumpria as medidas de seguran?a contra o novo coronavírus. Ao explicar as irregularidades flagradas pelos agentes e chamar o homem de cidad?o, foi agredido. Ele ouviu da mulher que seu marido n?o era um cidad?o, mas sim um “engenheiro civil formado” e, por esse motivo, seria “melhor” que o funcionário público. A agress?o foi gravada por uma equipe do "Fantástico", da TV Globo, que acompanhava a opera??o.

— Acho que o que a popula??o precisa n?o é esclarecimento, porque está sendo esclarecido o tempo todo (a gravidade da Covid-19). A popula??o precisa acordar. Uma senhora me disse que n?o achava que a pandemia era isso tudo, porque ela n?o tinha perdido ninguém. Eu respondi: “que bom que a senhora n?o perdeu ninguém, mas eu perdi muitos colegas em hospitais” — relata Jane.

Jane integra a equipe da Vigilancia que, de segunda-feira a segunda, faz inspe??es pela cidade do Rio, para garantir que os estabelecimentos cumpram os protocolos sanitários. Agora, nas etapas de flexibiliza??o, o trabalho é se certificar se, de fato, as "Regras de Ouro" s?o cumpridas. Em cerca de dez comboios, um efetivo de aproximadamente 120 funcionários roda pelo município. Desde 19 de mar?o, já foram mais de 35 mil opera??es realizadas.

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Enfermeira,  Jane costumava fazer inspe??es em consultórios médicos antes da pandemia, rotina que já seguia durante os 12 anos que está na pasta. 

— Fa?o um trabalho administrativo interno e também na rua, junto com a equipe. Sempre fui para a rua. Mesmo quando era gerente, às vezes tinha que sair para atender uma demanda mais complexa. Sempre nos desdobramos para manter todo o trabalho de denúncias. Nunca tivemos distin??o de quem vai para rua ou n?o. Conforme a necessidade, a gente organiza o trabalho interno e vai também, n?o tem uma hierarquia — explica ela.

A Vigilancia Sanitária informou que, apesar desses dois episódios, o número de casos de rea??o hostil ao trabalho dos técnicos n?o chega a dez. E frisou que as equipes contam com o apoio da Secretaria Municipal de Ordem Pública, da Guarda Municipal e da Polícia Militar.

— A gente n?o pode se contaminar e entrar nessa energia ruim deles. N?o adianta. Essa n?o é a solu??o do problema. Eu acho que as pessoas estavam enfurecidas, talvez até indignadas por estarem perdendo pessoas e se sentidos presas. E acho que, como o Flávio (Gra?a, fiscal) disse, elas saíram ensandecidas. Como se o mundo fosse acabar e elas tivessem que aproveitar o que podiam. N?o sei o que se passou na cabe?a delas para serem t?o hostis e n?o quererem respeitar normas essenciais para todos manterem suas vidas, como o uso da máscara.

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