Princípios Editoriais do Grupo Globo

índice

  1. Carta dos acionistas
  2. Preambulo: Breve defini??o de jornalismo
  3. Se??o I: Os atributos da informa??o de qualidade
    1. 1 A isen??o
    2. 2 A corre??o
    3. 3 A agilidade
  4. Se??o II: Como o jornalista deve proceder diante das fontes, do público, dos colegas, do veículo para o qual trabalha e das redes sociais
    1. 1 Diante das fontes
    2. 2 Diante do público
    3. 3 Diante dos colegas
    4. 4 Diante do veículo
    5. 5 Diante das redes sociais
  5. Se??o III: Os valores cuja defesa é um imperativo do jornalismo

Carta dos acionistas

Desde 1925, quando O Globo foi fundado por Irineu Marinho, as empresas jornalísticas das Organiza??es Globo [hoje Grupo Globo], comandadas por quase oito décadas por Roberto Marinho, agem de acordo com princípios que as conduziram a posi??es de grande sucesso: o êxito é decorrência direta do bom jornalismo que praticam. Certamente houve erros, mas a posi??o de sucesso em que se encontram hoje mostra que os acertos foram em maior número. Tais princípios foram praticados por gera??es e gera??es de maneira intuitiva, sem que estivessem formalizados ordenadamente num código. Cada uma de nossas reda??es sempre esteve imbuída deles, e todas puderam, até aqui, se pautar por eles. Por que, ent?o, formalizá-los neste documento?

Com a consolida??o da Era Digital, em que o indivíduo isolado tem facilmente acesso a uma audiência potencialmente ampla para divulgar o que quer que seja, nota-se certa confus?o entre o que é ou n?o jornalismo, quem é ou n?o jornalista, como se deve ou n?o proceder quando se tem em mente produzir informa??o de qualidade. A Era Digital é absolutamente bem-vinda, e, mais ainda, essa multid?o de indivíduos (isolados ou mesmo em grupo) que utiliza a internet para se comunicar e se expressar livremente. Ao mesmo tempo, porém, ela obriga a que todas as empresas que se dedicam a fazer jornalismo expressem de maneira formal os princípios que seguem cotidianamente. O objetivo é n?o somente diferenciar-se, mas facilitar o julgamento do público sobre o trabalho dos veículos, permitindo, de forma transparente, que qualquer um verifique se a prática é condizente com a cren?a. As Organiza??es Globo [hoje Grupo Globo], diante dessa necessidade, oferecem ao público o documento “Princípios Editoriais das Organiza??es Globo” [hoje “Princípios Editoriais do Grupo Globo”].

é possível que, para a maioria, ele n?o traga novidades. Se isso acontecer, será algo positivo: um sinal de que a maior parte das pessoas reconhece uma informa??o de qualidade, mesmo neste mundo em que basta ter um computador conectado à internet para se comunicar.

Desde logo, é preciso esclarecer que n?o se tratou de elaborar um manual de reda??o. O que se pretendeu foi explicitar o que é imprescindível ao exercício, com integridade, da prática jornalística, para que, a partir dessa base, os veículos das Organiza??es Globo [hoje Grupo Globo] possam atualizar ou construir os seus manuais, consideradas as especificidades de cada um. O trabalho tem o preambulo “Breve defini??o de jornalismo” e três se??es: a) Os atributos da informa??o de qualidade; b) Como o jornalista deve proceder diante das fontes, do público, dos colegas, do veículo para o qual trabalha [e das redes sociais]; c) Os valores cuja defesa é um imperativo do jornalismo.

O documento resultou de muita reflex?o, e sua matéria-prima foi a nossa experiência cotidiana de quase nove décadas. Levou em conta os nossos acertos, para que sejam reiterados, mas também os nossos erros, para que seja possível evitá-los. O que nele está escrito é um compromisso com o público, que agora assinamos em nosso nome e de nossos filhos e netos.

Rio de Janeiro, 6 de agosto de 2011

Roberto Irineu Marinho
Jo?o Roberto Marinho
José Roberto Marinho

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Breve defini??o de jornalismo

De todas as defini??es possíveis de jornalismo, a que o Grupo Globo adota é esta: jornalismo é o conjunto de atividades que, seguindo certas regras e princípios, produz um primeiro conhecimento sobre fatos e pessoas. Qualquer fato e qualquer pessoa: uma crise política grave, decis?es governamentais com grande impacto na sociedade, uma guerra, uma descoberta científica, um desastre ambiental, mas também a narrativa de um atropelamento numa esquina movimentada, o surgimento de um buraco na rua, a descri??o de um assalto à loja da esquina, um casamento real na Europa, as novas regras para a declara??o do Imposto de Renda ou mesmo a biografia das celebridades instantaneas. O jornalismo é aquela atividade que permite um primeiro conhecimento de todos esses fen?menos, os complexos e os simples, com um grau aceitável de fidedignidade e corre??o, levando-se em conta o momento e as circunstancias em que ocorrem. é, portanto, uma forma de apreens?o da realidade.

Antes, costumava-se dizer que o jornalismo era a busca pela verdade dos fatos. Com a populariza??o confusa de uma discuss?o que remonta ao surgimento da filosofia (existe uma verdade e, se existe, é possível alcan?á-la?), essa defini??o clássica passou a ser vítima de toda sorte de mal-entendidos. A simplifica??o chegou a tal ponto que, hoje, n?o é raro ouvir que, n?o existindo nem verdade nem objetividade, o jornalismo como busca da verdade n?o passa de uma utopia. é um entendimento equivocado. N?o se trata aqui de enveredar por uma discuss?o sem fim, mas a tradi??o filosófica mais densa dirá que a verdade pode ser inesgotável, inalcan?ável em sua plenitude, mas existe; e que, se a objetividade total certamente n?o é possível, há técnicas que permitem ao homem, na busca pelo conhecimento, minimizar a graus aceitáveis o subjetivismo.

é para contornar essa simplifica??o em torno da “verdade” que se opta aqui por definir o jornalismo como uma atividade que produz conhecimento. Um conhecimento que será constantemente aprofundado, primeiro pelo próprio jornalismo, em reportagens analíticas de maior f?lego, e, depois, pelas ciências sociais, em especial pela História. Quando uma crise política eclode, por exemplo, o entendimento que se tem dela é superficial, mas ele vai se adensando ao longo do tempo, com fatos que v?o sendo descobertos, investiga??es que v?o sendo feitas, personagens que resolvem falar. A crise só será mais bem entendida, porém, e jamais totalmente, anos depois, quando trabalhada por historiadores, com o estudo de documentos inacessíveis no momento em que ela surgiu. Dizer, portanto, que o jornalismo produz conhecimento, um primeiro conhecimento, é o mesmo que dizer que busca a verdade dos fatos, mas traduz com mais humildade o caráter da atividade. E evita confus?es.

Dito isso, fica mais fácil dar um passo adiante. Pratica jornalismo todo veículo cujo propósito central seja conhecer, produzir conhecimento, informar. O veículo cujo objetivo central seja convencer, atrair adeptos, defender uma causa, faz propaganda. Um está na órbita do conhecimento; o outro, da luta político-ideológica. Um jornal de um partido político, por exemplo, n?o deixa de ser um jornal, mas n?o pratica jornalismo, n?o como aqui definido: noticia os fatos, analisa-os, opina, mas sempre por um prisma, sempre com um viés, o viés do partido. E sempre com um propósito: o de conquistar seguidores. Faz propaganda. Algo bem diverso de um jornal generalista de informa??o: este noticia os fatos, analisa-os, opina, mas com a inten??o consciente de n?o ter um viés, de tentar traduzir a realidade, no limite das possibilidades, livre de prismas. Produz conhecimento. O Grupo Globo terá sempre e apenas veículos cujo propósito seja conhecer, produzir conhecimento, informar.

é claro que um jornal impresso, uma revista, um telejornal, um noticiário de rádio e um site noticioso na internet podem ter diversas se??es e abrigam muitos gêneros: o noticiário propriamente dito, os editoriais com a opini?o do veículo, análises de especialistas, artigos opinativos de colaboradores, cronistas, críticos. E é igualmente evidente que a opini?o do veículo vê a realidade sob o prisma das cren?as e valores do próprio veículo. Da mesma forma, um cronista comentará a realidade impregnado de seu subjetivismo, assim como os articulistas convidados a fazer as análises. Livre de prismas e de vieses, pelo menos em inten??o, restará apenas o noticiário. Mas, se de fato o objetivo do veículo for conhecer, informar, haverá um esfor?o consciente para que a sua opini?o seja contradita por outras e para que haja cronistas, articulistas e analistas de várias tendências.

Em resumo, portanto, jornalismo é uma atividade cujo propósito central é produzir um primeiro conhecimento sobre fatos e pessoas.

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Se??o I

Os atributos da informa??o de qualidade

Para que o jornalismo produza conhecimento, que princípios deve seguir? O trabalho jornalístico tem de ser feito buscando-se isen??o, corre??o e agilidade. Porque só tem valor a informa??o jornalística que seja isenta, correta e prestada com rapidez, os seus três atributos de qualidade.

1) A isen??o:

Isen??o é a palavra-chave em jornalismo. E t?o problemática quanto “verdade”. Sem isen??o, a informa??o fica enviesada, viciada, perde qualidade. Diante, porém, da pergunta eterna – é possível ter 100% de isen??o? – a resposta é um simples n?o. Assim como a verdade é inexaurível, é impossível que alguém possa se despir totalmente do seu subjetivismo. Isso n?o quer dizer, contudo, que seja impossível atingir um grau bastante elevado de isen??o. é possível, desde que haja um esfor?o consciente do veículo e de seus profissionais para que isso aconte?a. E que certos princípios sejam seguidos. S?o eles:

A - Os veículos jornalísticos do Grupo Globo devem ter a isen??o como um objetivo consciente e formalmente declarado. Todos os seus níveis hierárquicos, nos vários departamentos, devem levar em conta este objetivo em todas as decis?es;

B - Na apura??o, edi??o e publica??o de uma reportagem, seja ela factual ou analítica, os diversos angulos que cercam os acontecimentos que ela busca retratar ou analisar devem ser abordados. O contraditório deve ser sempre acolhido, o que implica dizer que todos os diretamente envolvidos no assunto têm direito à sua vers?o sobre os fatos, à express?o de seus pontos de vista ou a dar as explica??es que considerar convenientes;

C - Isso n?o quer dizer que o relato e/ou análise de fatos ser?o sempre uma justaposi??o de vers?es. Ao contrário, o jornalista deve se esfor?ar para deixar claro o que realmente aconteceu, quando isso for possível. Se uma apura??o, durante a qual se ouvem várias fontes, estabelecer como fato que certa autoridade disse isso ou aquilo durante uma reuni?o fechada, o relato deve ser assertivo, sem o uso do condicional. Será dito que “a autoridade disse isso e aquilo”, em vez de “a autoridade teria dito isso e aquilo”. Se a autoridade negar a afirma??o publicamente, deve-se registrar a atitude, n?o para invalidar a apura??o, mas porque a negativa passa a ser ela própria uma informa??o para o julgamento do público. O condicional só será usado quando a apura??o n?o for suficiente para que o jornalista consolide uma convic??o;

D - N?o pode haver assuntos tabus. Tudo aquilo que for de interesse público, tudo aquilo que for notícia, deve ser publicado, analisado, discutido;

E - Ninguém pode ser perseguido por se recusar a participar de uma reportagem; da mesma forma, ninguém pode ser favorecido por fazê-lo;

F - Todos os jornalistas envolvidos na apura??o, edi??o e publica??o de uma reportagem, em qualquer nível hierárquico, devem se esfor?ar ao máximo para deixar de lado suas idiossincrasias e gostos pessoais. Gostar ou n?o de um assunto ou personagem n?o é critério para que algo seja ou n?o publicado. O critério é ser notícia;

G - A hierarquia, numa reda??o, é fundamental para que o trabalho jornalístico possa ser feito a tempo e à hora. E a decis?o final caberá sempre àquele que estiver no comando. Ocupantes de cargos de chefia e dire??o devem, contudo, ter ouvidos abertos a críticas e argumenta??es contrárias. O trabalho jornalístico é essencialmente coletivo, e errar?o menos aqueles que ouvirem mais. Porque aquilo que pode parecer certo, acima de dúvidas, confrontado com outros argumentos, pode se revelar apenas fruto de gosto pessoal, idiossincrasia ou preconceito;

H - é imperativo que n?o haja filtros na composi??o das reda??es. Quanto mais diversa for uma reda??o – em termos de gostos, cren?as, tendências políticas, orienta??o sexual, origens social e geográfica – mais isenta será a escolha dos assuntos a serem cobertos, discutidos e analisados, e mais abrangente a acolhida dos pontos de vista em torno deles. Esse objetivo n?o se alcan?a estabelecendo-se cotas, mas simplesmente evitando-se filtros. Os jornalistas devem ser escolhidos entre os mais capazes em suas áreas e fun??es, entre aqueles que têm a democracia e a liberdade de express?o como valores absolutos e universais;

I - O Grupo Globo é apartidário, e os seus veículos devem se esfor?ar para assim ser percebidos;

J - O Grupo Globo é laico, e os seus veículos devem se esfor?ar para assim ser percebidos;

K - O Grupo Globo repudia todas as formas de preconceito, e seus veículos devem se esfor?ar para assim ser percebidos;

L - O Grupo Globo é independente de governos, e os seus veículos devem se esfor?ar para assim ser percebidos;

M - O Grupo Globo é independente de grupos econ?micos, e os seus veículos devem se esfor?ar para assim ser percebidos. Por esse motivo, as decis?es editoriais sobre reportagens envolvendo anunciantes ser?o tomadas a partir dos mesmos critérios usados em rela??o aos que n?o sejam anunciantes;

N - O Grupo Globo é entusiasta do Brasil, de sua diversidade, de sua cultura e de seu povo, tema principal de seus veículos. Isso em nenhuma hipótese abrirá espa?o para a xenofobia ou desdém em rela??o a outros povos e culturas;

O - Os jornalistas do Grupo Globo devem evitar situa??es que possam provocar dúvidas sobre o seu compromisso com a isen??o. Por exemplo, pode acontecer que atividades sociais ou econ?micas de parentes tenham impacto no trabalho cotidiano ou eventual dos jornalistas. é possível também que haja rela??o de amizade entre jornalistas e personalidades públicas ou personagens que estejam em destaque no noticiário ou que venham a estar. Em casos dessa natureza ou assemelhados, os jornalistas nessa situa??o devem comunicar o fato a seus superiores, que dever?o encontrar meios de superar o conflito. Jornalistas em cargo de chefia ou que lidem diretamente com assuntos econ?micos n?o podem fazer investimentos diretos em empresas ou em suas a??es na Bolsa de Valores para que n?o venham a ser acusados de publicar reportagens positivas ou negativas sobre elas em benefício próprio (o investimento em fundos é permitido). De maneira geral, todo jornalista, na administra??o de seus investimentos, deve evitar negócios com empresas ou institui??es cujas atividades cubra cotidianamente. Em caso de dúvida, a dire??o deve ser consultada;

P - é inadmissível que jornalistas do Grupo Globo fa?am reportagens em benefício próprio ou que deixem de fazer aquelas que prejudiquem seus interesses;

Q - Os jornalistas do Grupo Globo n?o podem se engajar em campanhas políticas, de forma alguma: nelas trabalhando, anunciando publicamente apoio a candidatos ou usando adere?os que os vinculem a partidos. Em seus manuais de reda??o, os veículos devem criar normas de quarentena para receber de volta jornalistas que tenham pedido demiss?o a fim de trabalhar para partidos, candidatos ou governos;

R - Os veículos do Grupo Globo devem ser transparentes em suas a??es e em seus propósitos. Isso significa que o público será sempre informado sobre as condi??es em que forem feitas reportagens que fujam ao padr?o. Assim, para citar um exemplo, se for imperativo aceitar carona num avi?o governamental em determinada cobertura, isso será dito ao público claramente e, sempre que possível, o governo será ressarcido das despesas. Da mesma forma, quando uma decis?o editorial provocar questionamentos relevantes, abrangentes e legítimos, os motivos que levaram a tal decis?o devem ser esclarecidos;

S - Os veículos do Grupo Globo estabelecer?o normas, em seus manuais de reda??o, sobre como devem proceder seus jornalistas diante de convites e presentes. A regra geral é que nada de valor deve ser aceito;

T - Todo esfor?o deve ser feito para que o público possa diferenciar o que é publicado como comentário, como opini?o, do que é publicado como notícia, como informa??o. Fora do noticiário propriamente dito, os veículos do Grupo Globo buscar?o ter um corpo de comentaristas, cronistas e colaboradores, fixos ou eventuais, que seja plural, representando o arco mais amplo de tendências legítimas em uma sociedade democrática. Articulistas, cronistas e colaboradores fixos têm de zelar para que os dados objetivos usados para sustentar suas opini?es estejam corretos. O mesmo deve acontecer com convidados, embora, neste caso, a responsabilidade pelo que é dito seja deles e n?o do veículo;

U - Os jornalistas do Grupo Globo agir?o sempre dentro da lei, procurando adaptar seus métodos de apura??o ao arcabou?o jurídico do país. Como o interesse público deve vir sempre em primeiro lugar, buscar?o o auxílio de especialistas para que n?o sejam vítimas de interpreta??es superficiais da legisla??o;

V - Uma pessoa poderá ser apresentada como suspeita de crime ou irregularidade quando investiga??es jornalísticas, feitas segundo os preceitos deste documento, assim permitirem. A reportagem terá de trazer a vers?o da pessoa acusada, de forma ampla, se ela se dispuser a falar;

W - Denúncia an?nima n?o é notícia; é pauta, mesmo se a fonte for uma autoridade pública: a denúncia deve ser investigada à exaust?o antes de ser publicada (ver se??o II item 4-e);

X - Denúncias e acusa??es, feitas em entrevistas por pessoas devidamente identificadas, que desfrutem de credibilidade, seja pelo cargo que ocupam, seja pela história de vida, podem ser publicadas, sem investiga??o própria, mas, necessariamente, acompanhadas pela vers?o dos acusados, de preferência no mesmo dia, quando estes se dispuserem a falar. Denúncias feitas em entrevistas por pessoas sem credibilidade, como criminosos, por exemplo, mesmo se identificadas, devem ser exaustivamente investigadas, antes de serem publicadas;

Y - Uma reportagem pode legitimamente apresentar uma pessoa como suspeita de crime ou irregularidade quando a suspei??o partir oficialmente de alguma autoridade pública e estiver registrada em documento ou entrevista. O anúncio oficial de que alguém é suspeito de crime ou irregularidade é um fato, que pode ser registrado dependendo de sua relevancia para a sociedade. Ao jornalista, cabe informar sobre o estágio em que se encontram as investiga??es, devendo sempre cobrar os indícios que levaram a autoridade a sustentar suas suposi??es, publicando-os, acompanhados da vers?o da pessoa acusada, se ela se dispuser a falar. Se a autoridade errar e culpar um inocente, o fato deve ser publicado com o mesmo destaque, e a polícia deve ser cobrada por seus erros;

Z - Os veículos jornalísticos do Grupo Globo devem priorizar sempre suas próprias investiga??es e publicar o que resultar delas apenas se houver convic??o formada de que a reportagem é legítima. Dessa forma, n?o é automática a publica??o de repercuss?es sobre reportagens de outros veículos. Isso só deve ocorrer se o exame da reportagem produzir, de imediato, a convic??o de que nela há elementos de verdade. Do contrário, é imperioso que haja investiga??o própria e, somente depois, se for o caso, repercutir a reportagem. Há ocasi?es em que a mera publica??o de uma reportagem produz efeitos instantaneos. Quando for assim, publicam-se os efeitos, descreve-se a reportagem, mas ressaltando-se a sua origem e, de modo algum, acolhendo-a como verdadeira. Tudo dependerá do caso, do assunto, do momento e dos efeitos que ela produzir. Mas pode-se dizer, de modo geral e a título de exemplo, que um ministro emitir uma nota respondendo a uma reportagem n?o é motivo suficiente para que um veículo do Grupo Globo a repercuta, antes de investiga??o própria; a queda do ministro, porém, sim, justifica a publica??o.

2) A corre??o:

Corre??o é aquilo que dá credibilidade ao trabalho jornalístico: nada mais danoso para a reputa??o de um veículo do que uma reportagem errada ou uma análise feita a partir de dados equivocados. O compromisso com o acerto deve ser, portanto, inabalável em todos os veículos do Grupo Globo. é evidente que, depois de tudo o que aqui já foi dito sobre o conceito de "verdade", n?o é demais dizer que estar correto é procurar descrever e analisar os fatos da maneira mais acurada, dadas as circunstancias do momento. Nesse sentido, a corre??o é um processo, uma constru??o que vai se dando dia após dia. O jornalista investiga os fatos, pouco a pouco, e vai montando um quebra-cabe?a. O retrato final estará ainda incompleto, à espera da História, mas terá de ser já, necessariamente, uma silhueta com contornos visíveis. N?o há fórmula, e nem jamais haverá, que torne o jornalismo imune a erros, porém. Quando eles acontecem, é obriga??o do veículo corrigi-los de maneira transparente, sem subterfúgios, num movimento que é ele próprio essencial à busca da informa??o correta. Um dos mecanismos que mais contribuem no controle de qualidade posterior à publica??o das informa??es é a rea??o do público. é essencial, portanto, que todos os veículos do Grupo Globo tenham, cada um à sua maneira, estruturas que recebam amplamente as observa??es do público, críticas ou elogiosas, para processá-las, entendê-las e dar seguimento a elas. Na busca pela corre??o, é necessário seguir os princípios:

A - Informa??es, para serem publicadas, devem ser confirmadas pelo maior número de fontes possível. Exce??o feita às informa??es oficiais, de entidades públicas ou privadas;

B - Informa??es e imagens enviadas pelo público pela internet só devem ser publicadas depois de averigua??o quanto à sua veracidade. Na cobertura de eventos em que o trabalho de jornalistas esteja cerceado, haverá casos em que será necessária a publica??o de informa??es e imagens assim obtidas, sem averigua??o, mas o público deverá ser avisado de que n?o há como confirmar se s?o verdadeiras;

C - O rigor com minúcias n?o é exagero, mas obriga??o. Todos os dados de uma reportagem – nomes, datas, locais, horários, idades, endere?os, referências históricas, descri??es de processos, defini??es científicas, termos de um contrato, explica??es sobre formas de governo, enfim, tudo o que de objetivo houver numa reportagem – devem ser exatos, corretos, sem erros;

D - Todo repórter é responsável pela exatid?o daquilo que apura, mas, como em jornalismo quase tudo se faz coletivamente, todos os envolvidos na edi??o de uma reportagem devem estar atentos para perceber inexatid?es. Expressar dúvidas sobre dados de uma reportagem antes de sua publica??o é a melhor maneira de torná-la mais exata;

E - A revis?o n?o é uma forma de controle ou censura. é parte integrante e fundamental do processo jornalístico, e sua principal fun??o é evitar erros. Se o processo jornalístico prescindiu da figura clássica do revisor, foi apenas porque todos os envolvidos numa reportagem se tornaram revisores. Nesse sentido, nenhuma reportagem deve ser publicada apenas com o exame do autor: é indispensável que outros envolvidos no processo participem desse exame;

F - Ferramentas tecnológicas hoje permitem o acesso rápido a bancos de dados confiáveis. Todas as reda??es do Grupo Globo devem viabilizar tal acesso, e seus jornalistas devem se impor como obriga??o consultar tais arquivos;

G - Em reportagens que requeiram conhecimento técnico, a consulta a especialistas deve ser obrigatória. Nenhum jornalista precisa ser médico, químico, biólogo ou historiador. Mas, por isso mesmo, para n?o errar em assuntos técnicos, todo jornalista precisa se socorrer de assessoria especializada, ouvindo sempre mais de um técnico toda vez que o assunto for controverso;

H - Quanto mais diversificado for o interesse dos jornalistas por disciplinas que n?o fazem parte de sua forma??o universitária básica, mais equipada estará uma reda??o para tratar dos múltiplos assuntos com que lida diariamente. Ilustrar-se continuamente é dever intransferível de todo jornalista: num mundo em constante evolu??o, nenhum jornalista deixa de estar em aprendizado contínuo. Os veículos do Grupo Globo, no entanto, devem montar programas e estruturas de treinamento para auxiliar seus jornalistas, subsidiariamente, nessa tarefa;

I - Com esse mesmo objetivo, embora o Grupo Globo deva manter a prática de recrutar majoritariamente seus profissionais nas faculdades de Comunica??o, seus veículos devem estar sempre abertos a acolher profissionais de outros campos que decidam se dedicar ao jornalismo, desde que demonstrem aptid?o para tal;

J - A análise crítica das edi??es passadas é um imperativo. é a verifica??o cotidiana de pontos negativos e positivos das reportagens que permite o aperfei?oamento contínuo delas e a ades?o a estes princípios editoriais. Todos os veículos do Grupo Globo devem ter as suas estruturas de análise, escolhendo aquelas que melhor se adaptam ao seu perfil;

K - Os veículos do Grupo Globo devem ter estruturas para receber e processar as observa??es, positivas e negativas, vindas do público de uma maneira geral: os consumidores de suas informa??es, as fontes, os especialistas e os personagens de suas reportagens. N?o se trata aqui de publicar ou deixar de publicar uma informa??o porque esta agrada a amplas camadas ou porque lhes desagrada: o dever de informar vem sempre em primeiro lugar. Conhecer a rea??o do público é fundamental porque contribui para a melhoria da qualidade da informa??o de muitas formas. Ajuda a conhecer possíveis erros, facilita o recebimento de novas informa??es sobre alguma cobertura e pode revelar o que é um fato em si mesmo: a própria rea??o do público. Essas estruturas devem ser capazes de discernir o que é manifesta??o espontanea e o que, em tempos de internet, é orquestra??o. N?o há um modelo único: cada veículo deve encontrar aquele mais condizente com o seu perfil;

L - Os erros devem ser corrigidos, sem subterfúgios e com destaque. N?o há erro maior do que deixar os que ocorrem sem a devida corre??o;

M - Os veículos do Grupo Globo usar?o a norma culta da Língua Portuguesa, levando sempre em conta a sua evolu??o e as múltiplas possibilidades que ela acolhe. Gírias e neologismos ser?o evitados, sendo aceitos em declara??o de entrevistados ou em reportagens mais leves, acompanhados, quando necessário, da explica??o sobre seu significado. Cada veículo estabelecerá, em seu manual de reda??o, a padroniza??o que considerar a mais apropriada. Mas editores evitar?o que suas idiossincrasias em rela??o à língua se tornem norma;

N - Os veículos do Grupo Globo têm obriga??o de se fazer entender. Uma notícia tem de ser publicada de forma clara, para que o público a compreenda sem dificuldades. Nesse sentido, na edi??o de reportagens, recursos explicativos que facilitem o entendimento s?o uma obriga??o.

3) A agilidade:

A agilidade da produ??o jornalística é o que compensa, em larga medida, as suas imperfei??es, se a compararmos a outras formas de conhecer a realidade. Em outras palavras, há um duplo sentido na afirma??o de que o jornalismo produz uma primeira imagem dos fatos: a imagem é primeira, porque dela ainda n?o se têm os contornos definitivos; mas, também, é primeira porque é tra?ada logo após o ocorrido. A informa??o tem de ser prestada no menor espa?o de tempo da melhor maneira possível, eis a equa??o diante da qual os jornalistas se veem todos os dias. Portanto, é atributo fundamental da qualidade da informa??o jornalística ser produzida com rapidez. Se a História pode dispor de anos de trabalho para fazer aflorar a realidade, o jornalismo disp?e de algumas horas (no máximo, de alguns dias, se a publica??o for semanal ou mensal). é a celeridade com que tra?a o primeiro retrato dos fatos que ao mesmo tempo dá utilidade à produ??o jornalística e justifica as suas lacunas. A notícia tem pressa. E é por essa raz?o que os seguintes princípios devem ser perseguidos:

A - Os veículos do Grupo Globo ter?o sempre como prioridade investir em tecnologia capaz de dar celeridade ao trabalho jornalístico e à sua difus?o. Dever?o estar atualizados com o que de melhor houver em maquinaria, equipamentos, softwares e meios de transporte;

B - A burocracia que envolve o lado administrativo das empresas jornalísticas deve levar sempre em conta a necessidade de dar celeridade ao trabalho jornalístico. Os veículos devem desenvolver processos que controlem or?amentos e despesas sem que estes se transformem em entraves à agilidade que o jornalismo requer;

C - A rapidez necessária ao trabalho jornalístico n?o se confunde com precipita??o: nenhuma reportagem será publicada sem que esteja apurada dentro de parametros seguros de qualidade;

D - Deve-se perseguir o furo jornalístico, a informa??o exclusiva, em primeira m?o, mas jamais se descuidar dos outros atributos da informa??o de qualidade: a isen??o com que é produzida, ouvindo-se todos os lados nela envolvidos, e a corre??o dos dados nela apresentados. Notícia errada ou enviesada n?o é furo; é um golpe na credibilidade do veículo;

E - Como princípio geral, n?o se deve guardar notícia. Em geral, informa??o confirmada é informa??o publicada. Os veículos, no entanto, devem julgar quando uma reportagem deve ser publicada de imediato, quando pode esperar a próxima edi??o ordinária ou, se houver convic??o de sua exclusividade, quando pode esperar por uma edi??o especial. O critério é a certeza de que a reportagem continuará a ser dada em primeira m?o, e que a demora em publicá-la n?o acarretará prejuízos à sociedade. Quanto mais postergada for uma reportagem, mais completa e mais trabalhada ela deve ser;

F - Deve-se ter humildade diante de furos de veículos concorrentes. Diante de casos assim, n?o se deve negar a realidade, mas entrar no assunto o mais rapidamente possível, tentando fazer mais e melhor, dando o crédito a quem de direito;

G - Essa postura em nada se confunde com a ades?o acrítica a reportagens veiculadas por concorrentes. Antes de serem publicadas em veículos do Grupo Globo, todas têm de ser confirmadas por verifica??es próprias. Isso é especialmente verdadeiro quando se trata de denúncias, de acordo com os procedimentos descritos no item 1-z desta se??o.

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Se??o II

Como o jornalista deve proceder diante das fontes, do público, dos colegas, do veículo para qual trabalha e das redes sociais

1) Diante das fontes:

A - Fazer e manter boas fontes é um dever de todo jornalista. Como a isen??o deve ser um objetivo permanente, é altamente recomendável que a rela??o com a fonte, por mais próxima que seja, n?o se transforme em rela??o de amizade. A lealdade do jornalista é com a notícia;

B - Se a rela??o de amizade com uma fonte for anterior à vida profissional do jornalista, este deve manter a dire??o do veículo informada, para que os conflitos possam ser evitados. O mesmo deve acontecer caso a rela??o fonte-jornalista, apesar dos esfor?os em sentido contrário, torne-se uma amizade ou algo maior;

C - O respeito e a transparência devem marcar a rela??o dos jornalistas com suas fontes. Quando indagado por elas sobre o destino da informa??o que acaba de lhe dar, o jornalista deve responder com a exatid?o possível;

D - Deve-se sempre respeitar compromisso assumido com as fontes, principalmente aqueles relativos à preserva??o da identidade delas. Por esse motivo, esse tipo de compromisso deve ser apenas firmado com fontes de cuja credibilidade n?o se possa desconfiar (ver item 4-e, desta se??o);

E - Concedida uma entrevista exclusiva, uma fonte pode pedir altera??es, acréscimos ou supress?es, mas o jornalista julgará se o pedido se justifica. Haverá vezes em que o jornalista n?o concordará com a mudan?a, sendo, nestes casos, necessário registrar que a mudan?a foi solicitada, mas n?o aceita.

2) Diante do público:

A - O público será sempre tratado com respeito, considera??o e cortesia, em todas as formas de intera??o com os jornalistas e seus veículos: seja como consumidor da informa??o publicada, seja como fonte dela;

B - Cada veículo tem um público-alvo e deve agir de acordo com as características dele, adaptando a elas pauta, linguagem e formato. Mas, para o Grupo Globo, todo público tem um alto poder de discernimento e entendimento: o menos culto dos homens é capaz de decidir o que é melhor para si, escolhe visando à qualidade e entende tudo o que lhe é relatado de forma competente. Essa convic??o deve ser levada em conta especialmente pelos veículos de massa que produzem informa??o para pessoas de todos os níveis de instru??o. Nesse caso, a linguagem e o formato n?o devem ser rebuscados a ponto de afastar os menos letrados nem simplórios a ponto de afastar os mais instruídos. Se informarem em linguagem clara sobre assuntos de interesse de todos, ser?o sempre bem entendidos;

C - Nenhum veículo do Grupo Globo fará uso de sensacionalismo, a deforma??o da realidade de modo a causar escandalo e explorar sentimentos e emo??es com o objetivo de atrair uma audiência maior. O bom jornalismo é incompatível com tal prática. Algo distinto, e legítimo, é um jornalismo popular, mais coloquial, às vezes com um toque de humor, mas sem abrir m?o de informar corretamente;

D - A sensibilidade do público será levada em conta. Cenas chocantes receber?o o tratamento devido de acordo com as características do público-alvo. Quanto mais indistinto o público, mais cuidados s?o necessários. Nesses casos, o público deve ter sempre a confian?a de que n?o será surpreendido por cenas que afrontem os valores médios presumidos da sociedade. A título de exemplo, talvez seja necessário mostrar o vídeo ou a foto de um homem-bomba explodindo, mas a cena pode ser congelada segundos antes do dilaceramento. Em resumo, a decis?o de publicar ou n?o cenas potencialmente chocantes e de como tratá-las deve sempre levar em conta a sua relevancia para o entendimento da quest?o abordada. A melhor saída é submeter a decis?o à opini?o do maior número de jornalistas de uma reda??o. De um grupo, sempre emerge mais facilmente o bom senso;

E - Todo veículo jornalístico tem uma responsabilidade social. Se é verdade que nenhum jornalista tem o cond?o de, certeiramente, escolher que informa??es s?o "boas" ou "más", é legítima a preocupa??o com os efeitos maléficos que uma informa??o possa causar à sociedade. Esse é um tema complexo, e sempre dependente da análise do momento. A regra de ouro é divulgar tudo, na suposi??o de que a sociedade é adulta e tem o direito de ser informada. A cren?a de que os veículos jornalísticos, ao n?o fazerem restri??es a temas, estimulam comportamentos desviantes é apenas isso: uma cren?a;

F - O jornalismo, contudo, n?o é insensível a riscos evidentes, mas estes s?o evitáveis quando se respeita outra regra de ouro: só se divulga informa??o relevante. Para citar um exemplo, um vídeo divulgado por um assassino em série pode e deve ser divulgado naquilo que é importante, mas n?o faz sentido deixar o criminoso ensinar como se articula um plano de assassinato em massa. Da mesma forma, n?o se publicam informa??es úteis para grupos criminosos, como o local aonde a polícia irá à cata de um sequestrador. E respeitam-se pedidos de pessoas que se considerem em risco com a publica??o de informa??es que lhe digam respeito, como um policial que matou em a??o um traficante perigoso e pode ser vítima de represália de seus comparsas;

G - Notícias sobre sequestros ser?o sempre publicadas. Estudos de experiências internacionais levaram o Grupo Globo à convic??o de que a publica??o de que uma pessoa foi sequestrada n?o p?e a vítima em risco, mas a protege. A notícia será publicada com todas as ressalvas, de modo a n?o revelar ao bandido o planejamento da polícia e da família, nem dar informa??es que mostrem a situa??o econ?mica da vítima. Isso obriga o veículo a um acompanhamento do sequestro mais sóbrio, sem necessariamente a publica??o diária de reportagens a respeito. O registro de solidariedade pública, quando relevante, ou de fatos que ajudem a família ou a polícia deve ser feito;

H - A privacidade das pessoas será respeitada, especialmente em seu lar e em seu lugar de trabalho. A menos que esteja agindo contra a lei, ninguém será obrigado a participar de reportagens;

I - Pessoas públicas – celebridades, artistas, políticos, autoridades religiosas, servidores públicos em cargos de dire??o, atletas e líderes empresariais, entre outros – por defini??o abdicam em larga medida de seu direito à privacidade. Além disso, aspectos de suas vidas privadas podem ser relevantes para o julgamento de suas vidas públicas e para a defini??o de suas personalidades e estilos de vida e, por isso, merecem aten??o. Cada caso é um caso, e a decis?o a respeito, como sempre, deve ser tomada após reflex?o, de preferência que envolva o maior número possível de pessoas;

J - O uso de microcameras e gravadores escondidos, visando à publica??o de reportagens, é legítimo se este for o único método capaz de registrar condutas ilícitas, criminosas ou contrárias ao interesse público. Deve ser feito com parcim?nia, e em casos de gravidade. Seu uso deve ser precedido da análise, pelas chefias imediatas, dos riscos que correr?o os jornalistas caso venham a ser descobertos. A imagem e/ou o áudio de pessoas que n?o estejam envolvidas diretamente no que estiver sendo denunciado devem ser protegidos. Em seus manuais de reda??o, os veículos devem estabelecer suas normas de uso.

3) Diante dos colegas:

A - De jornalistas de um mesmo veículo do Grupo Globo, espera-se espírito de colabora??o. Todos numa reda??o têm de cooperar entre si, para que o trabalho seja o melhor possível;

B - Os envolvidos numa mesma reportagem – da apura??o à edi??o – s?o responsáveis por sua qualidade. Devem agir como revisores uns dos outros, para bem do trabalho;

C - Os jornalistas n?o devem nunca se furtar de opinar sobre reportagens que estejam sendo feitas por colegas, criticando, sugerindo, ajudando a encontrar caminhos. A decis?o de publicar ou n?o uma reportagem, e de como tratá-la, é do editor responsável por ela, mas ele errará se menosprezar a opini?o de colegas de qualquer nível hierárquico. Errará ainda mais quando se conduzir de tal modo que iniba os jornalistas a opinar ou ponderar a respeito do que está sendo feito. Vale sempre repetir: jornalismo é uma obra coletiva, e terá tanto mais êxito quanto mais pessoas participarem do processo;

D - As reda??es dos veículos do Grupo Globo s?o absolutamente independentes umas das outras e competem entre si pelo furo, pela reportagem exclusiva. Esta é uma tradi??o que vem desde a origem do grupo e que tem se mostrado profícua: evita a pasteuriza??o do noticiário e estimula o pluralismo de abordagens. Isso n?o quer dizer que, levando-se em conta a convergência de mídias, n?o seja possível a constru??o de sinergias em torno do chamado noticiário básico – aquelas notícias obrigatórias a que todos os veículos têm acesso. Em outras palavras, faz sentido a disputa por assuntos exclusivos, faz sentido dar mais ênfase a determinados temas e n?o a outros, mas n?o há mal algum na troca de informa??es sobre a dimens?o de um temporal ou a ocorrência de um assalto, por exemplo.

4) Diante do veículo:

A - As reda??es s?o independentes na busca por notícias, mas há uma uni?o de princípios sobre como obtê-las, sendo estes princípios editoriais sua maior express?o. Nenhum jornalista do Grupo Globo justificará falhas, alegando desconhecer este código. Desconhecê-lo será considerado um erro ainda maior;

B - Os veículos do Grupo Globo expressam, em seus editoriais, uma opini?o comum sobre os temas em voga. Os textos podem e devem divergir no estilo, no enfoque, na ênfase nesse ou naquele argumento, mas a essência é a mesma. Essa opini?o deve refletir a vis?o do seu conselho editorial, composto por membros da família Marinho e jornalistas que dirigem as reda??es. Nenhum outro jornalista do grupo precisa, porém, concordar com tais opini?es, que, em nenhuma hipótese, influenciar?o as coberturas dos fatos. Estas, como exposto aqui extensivamente, devem se pautar por critérios de isen??o;

C - Os jornalistas têm um dever de lealdade com os veículos para os quais trabalham. As informa??es a que têm acesso se destinam ao veículo e com ele devem ser divididas. Ninguém, somente o veículo, deve decidir o que fazer com elas, sendo certo que o seu destino será a publica??o, se estiverem de acordo com os princípios explicitados neste documento. Da mesma forma, os veículos têm um dever de lealdade com seus jornalistas, e tudo devem fazer para protegê-los em sua atividade, fornecer-lhes meios adequados de trabalho e ampará-los em disputas provocadas por reportagens que publicam;

D - A participa??o de jornalistas do Grupo Globo em plataformas da internet como blogs pessoais e sites colaborativos deve levar em conta estes pressupostos: notícias por eles apuradas devem ser divulgadas primeiramente pelos veículos para os quais trabalham; procedimentos internos, projetos, ideias, planos para o futuro ou quaisquer outras informa??es relativas ao dia a dia das reda??es n?o devem ser divulgados, sob pena de tornar vulnerável o veículo em que trabalham em rela??o a seus concorrentes;

E - O sigilo sobre as fontes é inviolável, e os veículos do Grupo Globo proteger?o seus jornalistas na tarefa de mantê-lo em todas as instancias, sob qualquer circunstancia. O jornalista, porém, pode e deve dividi-lo com a dire??o do veículo, sempre que isso for fundamental para a tomada de decis?o sobre publicar ou n?o uma informa??o. Isso n?o é quebra de sigilo, pois a dire??o se obriga a guardá-lo em todos os casos. Fontes que deliberadamente mintam para o jornalista, levando-o propositadamente a erro, podem ter seu nome revelado, n?o como represália, mas se essa medida for fundamental para a corre??o que o veículo terá de publicar na edi??o seguinte.

5) Diante das redes sociais:

A - O Grupo Globo considera que toda rede social é potencialmente pública. Mesmo que alguém permita o acesso ao que nela diz ou publica a apenas um grupo de pessoas, há uma alta possibilidade de que tal conteúdo se torne público. E, quando essa pessoa é um jornalista, a sua atividade pública acaba relacionada ao veículo para o qual trabalha. Se tal atividade manchar a sua reputa??o de isen??o manchará também a reputa??o do veículo. Isso n?o é admissível, uma vez que a isen??o é o principal pilar do jornalismo. Perder a reputa??o de que é isento inabilita o jornalista que se dedica a reportagens a desempenhar o seu trabalho. Isso se aplica a todas as redes – Twitter, Instagram, Facebook, WhatsApp ou qualquer outra que exista ou venha a existir;

B - Em alguns casos, a perda da reputa??o de isen??o é evidente de imediato. Em outros, é preciso uma análise criteriosa. Essa avalia??o deve ser feita pelas chefias imediatas e compartilhada com a dire??o de reda??o, que decidirá quando é o caso de encaminhar a quest?o ao Conselho Editorial do Grupo Globo;

C - é evidente que, em aplicativos de mensagens, como WhatsApp e outros, em que há mais controle sobre o acesso, todos têm o inalienável direito de discutir o que bem entender com grupos de parentes e amigos de confian?a. Mas é preciso que o jornalista tenha em mente que, mesmo em tais grupos, o vazamento de mensagens pode ser danoso à sua imagem de isen??o e à do veículo para o qual trabalha. E que tal vazamento o submeterá a todas as consequências que a perda da reputa??o de que é isento acarreta. Assim, compartilhar mensagens que revelem posicionamentos políticos, partidários ou ideológicos, mesmo em tais grupos, exige a confian?a absoluta em seus participantes – confian?a que só pode ser avaliada pelo jornalista;

D - Em sua atua??o nas redes sociais, o jornalista deve evitar tudo o que comprometa a percep??o de que o Grupo Globo é isento. Por esse motivo, nas redes sociais, esses jornalistas devem se abster de expressar opini?es políticas, promover e apoiar partidos e candidaturas, defender ideologias e tomar partido em quest?es controversas e polêmicas que est?o sendo cobertas jornalisticamente pelo Grupo Globo. Em síntese, esses jornalistas n?o devem nunca se p?r como parte do debate político e ideológico, muito menos com o intuito de contribuir para a vitória ou a derrota de uma tese, uma medida que divida opini?es, um objetivo em disputa. Isso inclui endossar ou, na linguagem das redes sociais, “curtir” publica??es ou eventos de terceiros que participem da luta político-partidária ou de ideias. Quando acompanhar a atividade nas redes sociais de candidatos, partidos, entidades ou movimentos em torno da defesa de ideias ou projetos for fundamental para a cobertura jornalística, é permitido que o jornalista siga as suas páginas ou contas (mas n?o se deve curtir os seus posts). Quando for assim, o jornalista deve seguir todos os candidatos a um cargo majoritário e, nos outros casos, partidos e movimentos que defendam ideias opostas ou essencialmente diferentes, para que fique claro ao público que a iniciativa de os seguir n?o se deve a preferências pessoais. Da mesma forma, esses jornalistas devem avaliar se sua imagem de isen??o estará sendo comprometida ao compartilhar material de terceiros. Agir de modo diferente compromete de forma irremediável a isen??o do jornalista e mancha a reputa??o do veículo para o qual trabalha, com a consequência já mencionada;

E - Como em todos os veículos de imprensa, há no Grupo Globo jornalistas cuja fun??o é analisar fatos e controvérsias e opinar sobre eles. Por óbvio, tais jornalistas n?o ferem o princípio da isen??o. Primeiramente, porque agem com transparência, deixando explícito que n?o fazem uma reportagem objetiva sobre os fatos, mas a partir deles os analisam e opinam sobre eles (ver Se??o I, item 1, letra t). é uma atividade jornalística diversa da reportagem, mas que atende também a uma demanda do público: ter acesso a opini?es e análises sobre fatos e controvérsias para que possa formar a sua própria opini?o. Tais jornalistas, normalmente chamados de comentaristas, analistas ou colunistas de opini?o, devem ter uma atua??o na rede social que n?o permita a percep??o de que s?o militantes de causas e que fazem parte da luta político-partidária ou de ideias. A eles, como a todos, é vedado apoiar candidatos ou partidos, dentro e fora de elei??es;

F - Colaboradores, em se??es de análise e opini?o, que n?o sejam jornalistas, mas profissionais de outras áreas de atua??o, devem julgar como atuar nas redes sociais, conscientes de que a sua reputa??o, fundamental para sua condi??o de colaborador, é afetada por essa atua??o. N?o é permitido declarar voto ou fazer propaganda para candidatos ou partidos no material produzido especificamente para os veículos para os quais trabalham;

G - Por raz?es correlatas, é imprescindível que o jornalista do Grupo Globo evite a percep??o de que faz publicidade, mesmo que indiretamente, ao citar ou se associar a nome de hotéis, marcas, empresas, restaurantes, produtos, companhias aéreas etc. Isso também n?o deve acontecer em contas de terceiros, e o jornalista deve zelar para evitar tais ocorrências. Participantes de programas esportivos televisivos, radiof?nicos ou transmitidos pela internet seguir?o neste quesito a política comercial de seus veículos. O jornalista deve evitar criticar hotéis, marcas, empresas, restaurantes, produtos, companhias aéreas etc., mesmo que tenha tido uma má experiência. O motivo é simples: a posi??o que ocupa nos veículos do Grupo Globo pode levar a que tenha um tratamento preferencial no reparo de danos sofridos;

H - Essas diretrizes em nada diminuem a importancia que o Grupo Globo vê nas redes sociais. O Grupo Globo estimula o seu jornalista e os seus veículos a utilizarem as redes sociais como valioso instrumento para se aproximar de seu público, ampliá-lo, refor?ar a imagem de credibilidade de que já desfrutam, divulgar os seus conteúdos, encontrar notícias, fazer fontes. Nessa atividade, devem, porém, observar as regras até aqui descritas. E outras deste código;

I - Os jornalistas do Grupo Globo devem sempre priorizar os seus veículos na divulga??o de notícias, ou seja: noticiar os fatos sempre em primeira m?o nos veículos para os quais trabalham. Somente ent?o, poder?o disponibilizar as notícias nas redes sociais, mas seguindo regras: as notícias devem ser brevemente resumidas e acompanhadas de um link que permita ao leitor ler a sua íntegra no veículo que a publicou. Quando a notícia n?o dispuser de um link específico, é obrigatória a publica??o de um link do veículo para o qual trabalha, com a especifica??o da editoria, para que o leitor possa buscar mais detalhes. Devem agir de forma igual os comentaristas, analistas e colunistas de opini?o em rela??o ao que produzirem para os veículos para os quais trabalham;

J - A publica??o de reportagens certamente vai gerar comentários dos leitores. O jornalista do Grupo Globo deve tratar todos com respeito. Pode esclarecer dúvidas e comentar críticas. Se estas forem ofensivas, talvez seja melhor simplesmente n?o responder. Se se sentir vítima de abuso, é legítimo que o jornalista do Grupo Globo bloqueie os ofensores. Mas é preciso critério: n?o confundir críticas contundentes, mas legítimas, com ofensas e abusos;

K - O jornalista do Grupo Globo, sem exce??o, n?o pode, por óbvio, criticar colegas de suas reda??es ou de reda??es de competidores nas redes sociais. O crítico acaba sempre por se diminuir diante do público. Da mesma forma, chefias n?o devem usar as redes sociais para elogiar os próprios veículos ou criticar concorrentes. Elogios e críticas podem ser interpretados como arrogancia, algo que deve sempre ser evitado. Nesses dois casos, com propósitos construtivos, devem ser sempre priorizados os canais internos;

L - Essas regras s?o válidas para todos os jornalistas do Grupo Globo e devem ser rigorosamente observadas. As chefias diretas ficam com a incumbência de implementá-las, torná-las uma realidade e, em caso de faltas por parte de jornalistas, dividir os episódios com a dire??o de reda??o do veículo, que decidirá ent?o se é o caso de levá-los à aprecia??o do Conselho Editorial do Grupo Globo;

M - O Grupo Globo tem a compreens?o de que, muitas vezes, o jornalista pode se sentir em dúvida sobre se um texto seu nas redes sociais resvala na tomada de posi??o, ferindo o princípio da isen??o. A única solu??o é consultar a chefia.

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Se??o III

Os valores cuja defesa é um imperativo do jornalismo

O Grupo Globo será sempre independente, apartidário, laico e praticará um jornalismo que busque a isen??o, a corre??o e a agilidade, como estabelecido aqui de forma minuciosa. N?o será, portanto, nem a favor nem contra governos, igrejas, clubes, grupos econ?micos, partidos. Mas defenderá intransigentemente o respeito a valores sem os quais uma sociedade n?o pode se desenvolver plenamente: a democracia, as liberdades individuais, a livre iniciativa, os direitos humanos, a república, o avan?o da ciência e a preserva??o da natureza.

Para os propósitos deste documento, n?o cabe defender a importancia de cada um desses valores; ela é evidente por si só. O que se quer é frisar que todas as a??es que possam amea?á-los devem merecer aten??o especial, devem ter uma cobertura capaz de jogar luz sobre elas. N?o haverá, contudo, apriorismos. Essas a??es devem ser retratadas com espírito isento e pluralista, acolhendo-se amplamente o contraditório, de acordo com os princípios aqui descritos, de modo a que o público possa concluir se há ou n?o riscos e como se posicionar diante deles.

A afirma??o destes valores é também uma forma de garantir a própria atividade jornalística. Sem a democracia, a livre iniciativa e a liberdade de express?o, é impossível praticar o modelo de jornalismo de que trata este documento, e é imperioso defendê-lo de qualquer tentativa de controle estatal ou paraestatal. Os limites do jornalista e das empresas de comunica??o s?o as leis do país, e a liberdade de informar nunca pode ser considerada excessiva.

Esta postura vigilante gera inc?modo, e muitas vezes acusa??es de partidarismos. Deve-se entender o inc?modo, mas passar ao largo das acusa??es, porque o jornalismo n?o pode abdicar desse seu papel: n?o se trata de partidarismos, mas de esmiu?ar toda e qualquer a??o, de qualquer grupo, em especial de governos, capaz de amea?ar aqueles valores. Este é um imperativo do jornalismo do qual n?o se pode abrir m?o.

Isso n?o se confunde com a cren?a, partilhada por muitos, de que o jornalismo deva ser sempre do contra, deva sempre ter uma postura agressiva, de crítica permanente. N?o é isso. N?o se trata de ser contra sempre (nem a favor), mas de cobrir tudo aquilo que possa p?r em perigo os valores sem os quais o homem, em síntese, fica tolhido na sua busca por felicidade. Essa postura está absolutamente em linha com o que rege as a??es do Grupo Globo. No documento "Vis?o, Princípios e Valores", de 1997, está dito logo na abertura: "Queremos ser o ambiente onde todos se encontram. Entendemos mídia como instrumento de uma organiza??o social que viabilize a felicidade."

O jornalismo que praticamos seguirá sempre este postulado.

Em caso de dúvida sobre este documento, escreva um e-mail para principioseditoriais@oglobo.com.br

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