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Diante de crescimento da oposi??o, presidente da Pol?nia acirra guerra cultural em elei??es

Crescimento de candidato opositor pode levar disputa deste domingo a segundo turno; para analista, está em jogo o futuro da democracia
Ciclistas passam em frente a cartazes do opositor Rafal Trzaskowski e do atual presidente Andrzej Duda em um subúrbio de Varsóvia Foto: WOJTEK RADWANSKI / AFP
Ciclistas passam em frente a cartazes do opositor Rafal Trzaskowski e do atual presidente Andrzej Duda em um subúrbio de Varsóvia Foto: WOJTEK RADWANSKI / AFP

RIO - Muito mudou de meados de maio, quando as elei??es presidenciais na Pol?nia foram adiadas às vésperas da data marcada por causa da pandemia, para amanh?, quando elas devem enfim acontecer.

O principal partido da oposi??o, a centrista Plataforma Cívica, substituiu o seu candidato, que passou a ser o carismático prefeito de Varsóvia, Rafa? Trzaskowski. Frente ao novo adversário, o atual presidente, Andrzej Duda, viu sua vantagem encolher. Se antes havia a expectativa de uma reelei??o já no primeiro turno, agora uma segunda vota??o entre os dois, daqui a 15 dias, se tornou provável. Pressionado, Duda, do partido ultraconservador Lei e Justi?a (PiS), que até ent?o tinha baseado sua campanha na imagem de um gestor competente, com forte desempenho na economia e na política externa, radicalizou o seu discurso, e passou a disparar invectivas anti-LGBT, à imigra??o e à oposi??o.

Em jogo nas urnas estará a continua??o das políticas do PiS, na Presidência desde 2015, e que também domina o Parlamento. No período, o partido, que já ganhou três elei??es nacionais (parlamentares e presidenciais) consecutivas, conduziu uma severa investida contra as institui??es democráticas da Pol?nia. Sob a lideran?a de Jaros?aw Kaczyski — ex-premier, atual presidente do partido e líder de fato do país —, o PiS transformou a TV estatal em um veículo de propaganda do governo. Promoveu uma reforma judicial denunciada na Uni?o Europeia. Restringiu a liberdade de express?o e come?ou uma série de julgamentos contra opositores políticos.

De acordo com o sistema semipresidencialista da Pol?nia, o presidente depende do Parlamento para governar, e n?o tem a capacidade de impor a sua própria agenda. Detém, entretanto, o poder de veto. As elei??es que come?am no domingo, portanto, decidem se as reformas antiliberais polonesas poder?o ir adiante, ou se passar?o a ter um freio.

— O que está em jogo é a continua??o do afastamento da democracia, do abandono dos princípios e institui??es de uma democracia, ou ent?o a possibilidade de barrar esse processo. O presidente n?o pode criar a sua agenda, mas pode bloquear iniciativas. A disputa n?o é entre diferentes op??es de políticas públicas, mas entre diferentes vis?es do que é a política — afirmou Ben Stanley, cientista político da universidade SWPS, em Varsóvia.

Progressista centrisa

Trzaskowski, que foi eleito para governar a capital polonesa em 2018, é considerado um progressista dentro de seu partido. Adotou políticas de combate à discrimina??o da popula??o LGBT, medidas de apoio ao ambiente e tem uma vis?o a favor da integra??o com a Uni?o Europeia. Desfruta de apoio principalmente de setores urbanos, escolarizados e modernizantes. N?o chega a ter um programa de governo sólido, mas fez campanha com a promessa de impor limites aos projetos do PiS no Parlamento.

Duda, por sua vez, conta com uma base provinciana, tradicionalista e que, por vezes, flerta com a xenofobia. No come?o de sua carreira política, n?o mostrava sinais de radicalismo, sendo considerado t?o somente um conservador. Há apenas quatro meses, afirmou que “levaria a sério” a possibilidade de assinar uma lei que permitisse uni?es civis de pessoas do mesmo sexo.

Após Trzaskowski substituir a incolor Ma?gorzata Kidawa-B?oska e subir nas pesquisas — também porque o seu partido pretendia boicotar as elei??es de maio, o que represava seu verdadeiro potencial eleitoral — o presidente mudou o rumo da campanha e adotou uma tática do medo.

Hoje, Trzaskowski aparece com cerca de 29% das inten??es de voto, enquanto Duda tem 42%. No segundo turno, a diferen?a cai, e a vantagem de Duda se reduz, segundo as pesquisas, para poucos pontos percentuais. Em algumas delas, o oposicionista lidera.

O desafio real levou o candidato à reelei??o a vociferar que a oposi??o pretende impor uma “ideologia LGBT” na Pol?nia, que descreveu como “pior do que o bolchevismo”. A Plataforma Cívica, disse Duda, é “um vírus pior do que o coronavírus”. O presidente atacou também uma cartilha contra a discrimina??o sexual distribuída em Varsóvia, que descreveu como parte de uma “guerra cultural”.

Em plena reta final de campanha, Duda viajou na quarta-feira para Washington, onde se encontrou com Donald Trump. Havia a expectativa do anúncio da transferência de tropas americanas da Alemanha para a Pol?nia, o que n?o ocorreu. O presidente polonês tenta se apresentar como mais próximo dos EUA do que das potências europeias, que descreve como decadentes.

Todos estes clamores, contudo, n?o aumentaram seus índices de inten??o de votos nas pesquisas. Duda permanece o favorito para ganhar no segundo turno, porque tem a seu favor fatores como “ser o atual presidente e ter a mídia estatal a seu lado”, disse Ben Stanley, o cientista político da Varsóvia. Ainda assim, “só tem reagido, em vez de conseguir ditar as regras do jogo”.

— Muitos eleitores conservadores moderados n?o se convenceram pela retórica de guerra cultural. Ao contrário das expectativas do PiS, a renova??o desta retórica com a ajuda da “ideologia LGBT” n?o deu impulso à campanha — afirmou Stanley. — Duda leva vantagem, mas a disputa está acirrada. Ele tem vantagens de que o adversário n?o disp?e.

 

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