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Da militancia de Hamilton à negligência de Djokovic, as diferentes posturas dos ídolos do esporte

Piloto britanico participa de movimentos antirracismo e outras causas sociais, enquanto tenista sérvio tem histórico controverso com a ciência
Novak Djokovic cercado de tenistas e boleiros durante torneio de tênis em Belgrado Foto: Marko Djurica / REUTERS
Novak Djokovic cercado de tenistas e boleiros durante torneio de tênis em Belgrado Foto: Marko Djurica / REUTERS

Melhores do mundo em suas modalidades, o tenista Novak Djokovic e o piloto Lewis Hamilton ocupam as manchetes mesmo durante a paralisa??o das competi??es por conta da pandemia do coronavírus. Em vez das conquistas nas quadras ou nas pistas, o que reverbera agora é a forma com que lidam com quest?es urgentes de nosso tempo: a amea?a do vírus e os protestos antirracismo após a morte de George Floyd, um cidad?o negro, por um policial branco nos EUA. Apenas um deles, porém, sairá desse período de exce??o com a imagem intocada.

No último domingo, Hamilton era uma entre as milhares de pessoas que se reuniram no Hyde Park, em Londres, para mais um protesto do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam). N?o foi reconhecido, porque cobria o rosto com um pano. Mas fez quest?o de postar registros do ato nas redes sociais. “Fiquei muito orgulhoso de ver pessoas de todas as ra?as e origens apoiando esse movimento”, escreveu.

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Um dia antes, ele anunciara ao jornal britanico “The Times” a cria??o da “Hamilton Commission”, que terá como miss?o ampliar a diversidade no automobilismo através de suporte educacional e profissional para pessoas negras nas áreas de ciência e tecnologia.

— Apesar do meu sucesso no esporte, as barreiras que tornam a F1 altamente exclusiva persistem. N?o basta apontar para mim ou para uma única contrata??o de um negro como exemplo de progresso. Milhares s?o empregados por essa indústria, e esse grupo precisa ser mais representativo da sociedade — justificou o piloto, até hoje o único negro campe?o da Fórmula 1.

EM VáRIAS FRENTES

O ativismo de Hamilton, 35 anos, n?o é recente, muito menos limitado a um tópico. Ele é embaixador das Organiza??es das Na??es Unidas (ONU), já capitaneou projetos que pretendem aumentar a presen?a de mulheres no automobilismo e tem pressionado sua equipe, a Mercedes, a encontrar solu??es menos poluentes. Nos negócios, lan?ou uma rede de fast food vegano, após ele mesmo aderir ao vegetarianismo, e criou uma linha de roupas que prioriza a utiliza??o de materiais sustentáveis.

Lewis Hamilton participa de protesto antirracista em Londres Foto: Reprodu??o
Lewis Hamilton participa de protesto antirracista em Londres Foto: Reprodu??o

 

No início deste ano, ele anunciou uma doa??o de cerca de R$ 2 milh?es à Austrália, afetada pelos incêndios florestais que mataram dezenas de pessoas e mais de um bilh?o de animais. Dois meses depois, quando esteve no país para o GP de Melbourne, fez quest?o de visitar pessoalmente as áreas atingidas. Nessa mesma viagem, confrontou os interesses da F1 ao criticar a realiza??o da corrida em meio ao avan?o do vírus. “O dinheiro manda”, ironizou o hexacampe?o da categoria.

O GP acabou cancelado, e a temporada da Fórmula 1 come?ará, em vers?o reduzida, no dia 5, na áustria. Hamilton está a um título de igualar Michael Schumacher, maior vencedor da F1.

Postura bem diferente em rela??o ao vírus teve Novak Djokovic, dono de 17 títulos de Grand Slam e candidato a ultrapassar Roger Federer (20) e Rafael Nadal (19) no ranking dos maiores vencedores de todos os tempos.

Embora a Europa ainda esteja se recuperando da primeira onda de contamina??es, o sérvio julgou que poderia reunir alguns dos principais nomes do circuito para um torneio beneficente na regi?o dos Bálc?s. Mais que isso: permitiu que até 4 mil pessoas se aglomerassem nas arquibancadas — a maioria sem usar máscaras — e se juntou aos amigos em a??es promocionais e até festas em boates.

O vírus, que n?o aceita desaforo, rapidamente se espalhou entre os tenistas e pessoas ligadas a eles. Até dez infec??es provavelmente ligadas ao Adria Tour foram confirmadas, incluindo a do próprio sérvio e de sua mulher. Também testaram positivo o búlgaro Grigor Dimitrov, 19o do mundo, o croata Borna Coric (33o) e o sérvio Viktor Troicki (184o). Tiveram mais sorte o austríaco Dominic Thiem, em 3o, e o alem?o Alexander Zverev, o 7o.

Após seu próprio diagnóstico para Covid- 19, Djoko se desculpou, admitindo, em nota, que era “muito cedo” para realizar o torneio.

MUITO POUCO, MUITO TARDE

A obviedade dessa constata??o, porém, impediu que o sérvio fosse absolvido. Ele foi criticado por companheiros de circuito, como o duplista brasileiro Bruno Soares e o bad boy australiano Nick Kyrgios. Também foi repreendido pelo presidente da Associa??o dos Tenistas Profissionais (ATP), Andrea Gaudenzi.

O ex-tenista Fernando Meligeni também n?o poupou Djokovic e observou que sua situa??o se agrava pela combina??o de três fatores: além de ser o anfitri?o do evento e número 1 do mundo, o sérvio é um dos representantes dos atletas na comiss?o que discute os temas ligados ao esporte e ao circuito. Tamanha irresponsabilidade é incompatível com a posi??o e pode afetar a imagem que se tem dele, mesmo que se torne o maior vencedor da história.

— A imagem de um atleta n?o é apenas ganhar ou perder. Ou mesmo uma atitude boa ou ruim. Ela se constrói com o tempo. Federer já errou, mas olha tudo o que já fez. Como lutou pelo circuito e por jogadores mais baixos (no ranking), como ele é agradável com as pessoas e querido no vestiário... — disse Meligeni ao GLOBO.

Também joga contra Djoko, 33 anos, seu histórico controverso com a ciência. No início da pandemia, ele se declarou contrário à obrigatoriedade de vacina??o para a Covid-19. Dias depois, declarou que o “poder da ora??o” era capaz de transformar água poluída em substancia curativa.

Em 2017, relutara em operar uma les?o no cotovelo por acreditar em métodos curativos. Rendeu-se à mesa cirúrgica no ano seguinte. E, apesar de ter chorado por três dias por acreditar que havia “falhado consigo mesmo”, celebrou a conquista de dois Grand Slams no fim da temporada.

Hamilton e Djokovic têm a chance de entrar para a história como os maiores de todos os tempos em suas modalidades. Somente um deles, porém, parece ciente de tudo o que é preciso para chegar além.

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