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O operário do Livramento

Sem possuir nenhuma forma??o acadêmica, Machado aprendeu latim, francês e inglês por conta própria

RIO - Quando fui apresentado à Machado de Assis, há muito ele já era conhecido como o bruxo do Cosme Velho. De fato, identifiquei certa magia logo na primeira leitura, e aceitei o apelido sem pensar muito sobre ele.

De uns tempos pra cá, com a desculpa de escrever um posfácio, venho estudando a literatura de Machado e,  consequentemente, sua vida. Ao observar os caminhos que trilhou, o apelido come?a a se tornar problemático. N?o porque traga algum demérito, ou conte alguma mentira, mas por passar uma imagem que, na minha leitura, suprime elementos fundamentais da vida do escritor.

Antes de chegar à bruxaria, vamos ao Cosme Velho. Machado nasceu em 1839, neto de escravizados e filho de uma família que vivia como agregada numa chácara no morro do Livramento. Mudou-se para o Cosme Velho em 1884, onde passou o resto de seus dias.

Homem negro, nascido quase 50 anos antes da aboli??o no Brasil, Machado tra?ou para si uma trajetória de sucesso incontestável. Tendo em vista sua biografia, e analisando hoje os movimentos literários que explodem por favelas e periferias de todo o país, n?o seria mais oportuno que o destaque no apelido se desse pelo local de origem do autor? No cenário atual, a origem no Livramento conversa diretamente com o movimento pulsante e necessário da literatura brasileira; enquanto o Cosme Velho continua a ser um bairro na Zona Sul do Rio, área já muito conhecida pelo transito de artistas.

Agora vamos à bruxaria. Mais uma vez, é preciso olhar atentamente para a vida do autor. Em 1855, aos 15 anos, Machado de Assis realizou sua primeira publica??o, um poema chamado “Ela” no extinto "Marmota Fluminense". Daí até o ano de sua morte, em 1908, Machado publicou em vários formatos, desde cr?nicas em jornal, críticas, pe?as de teatro, contos, poemas, romances, além das tradu??es.

Sem possuir nenhuma forma??o acadêmica, Machado aprendeu latim, francês e inglês por conta própria. Leu os grandes clássicos da literatura mundial, incorporando de forma crucial em suas próprias obras. Aos 20 anos, escrevia crítica para as pe?as de teatro da época. O trabalho n?o era remunerado, mas garantia ao autor o livre acesso a todos os espetáculos da cidade. E assim foi por toda vida. Tanto que aos 65, já presidente da ABL, come?ou a estudar grego.

"Memórias póstumas de Brás Cubas", romance que mudaria para sempre a carreira de Machado, assim como a própria literatura brasileira, é lan?ado em 1879, 24 anos após a primeira publica??o do autor, tendo este completado 40 de idade. E é isto que me incomoda na alcunha de bruxo. Quando dizemos bruxo, naturalmente, sup?e-se poderes mágicos, habilidades sobre-humanas, ou seja, o oposto do que foi Machado de Assis.

Por melhores que sejam as inten??es, o apelido me parece injusto com a vida do autor. Machado foi um verdadeiro operário das letras brasileiras, e deveria ser reconhecido como tal.

N?o tenho dúvidas de que para o público em forma??o, sejam eles leitores ou possíveis escritores, seria muito mais proveitoso conhecer o autor a partir do processo intenso de estudos que permitiu o desenvolvimento de sua alquimia, do que apenas com o resultado alcan?ado ao final de sua trajetória.

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