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'Quando você é uma atriz gorda e trans, as pessoas te colocam em uma caixinha', diz Eme Barbassa

Cansada de interpretar sempre os mesmos papéis, a atriz se tornou diretora e dramaturga. Durante o isolamento domiciliar, ela dirige um projeto de lives cênicas sobre amor, vulnerabilidade e masculinidade tóxica
Durante a quarentena, a atriz, dramaturga e diretora de teatro Eme Barbassa, de 38 anos, desenvolve o projeto de lives cênicas "Phantasmagoria – O Amor nos Tempos de Esgotamento" Foto: Lisa Cristine
Durante a quarentena, a atriz, dramaturga e diretora de teatro Eme Barbassa, de 38 anos, desenvolve o projeto de lives cênicas "Phantasmagoria – O Amor nos Tempos de Esgotamento" Foto: Lisa Cristine

Com de 20 anos de trabalho no teatro profissional, Eme Barbassa, de 38 anos, iniciou a carreira interpretando personagens, mas se tornou diretora e dramaturga para alcan?ar a emancipa??o como atriz. Mulher trans, gorda e feminista, ela era reduzida a certos nichos e sentia as imposi??es sobre seu corpo "dentro de uma hierarquia social conservadora, capitalista, gordofóbica, transfóbica e preconceituosa".

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Quando as apresenta??es em que trabalhava foram suspensas em meio à pandemia da Covid-19, Eme se juntou ao ator, cantor e bailarino Davi Tostes para desenvolver um projeto cênico em forma de live no Instagram. A primeira cena criada por eles foi o término de um relacionamento por videochamada. Um detalhe: nenhum dos telespectadores foi avisado se tratar de uma pe?a. Assim come?ou o projeto "Phantasmagoria – O Amor nos Tempos de Esgotamento", idealizado pelos artistas e escrito e dirigido por ela. "Um teatro de rua virtual", define. Eme Barbassa também interpreta a namorada, uma das protagonistas da história, que aborda temas como masculinidade tóxica e vulnerabilidade.

— Eu brinco que nunca interpretaria essa personagem se fosse dirigida por qualquer outra pessoa. Essa mulher seria vivida por uma menina jovem, possivelmente loira, integralmente magra. Eu n?o falo a palavra gorda ou trans em cena, mas quando assumo a personagem e apare?o com meu corpo, minha voz, meu rosto, isso adiciona camadas de interpreta??o — avalia.

Além do término do casal, o projeto, dividido em cinco episódios, mostra uma conversa do protagonista com sua irm? sobre as dificuldades de cuidar da m?e idosa durante a quarentena, uma chamada com uma camgirl e uma consulta virtual com uma psicanalista. A cada semana, as cenas já exibidas s?o repetidas e uma nova é acrescentada. Os últimos capítulos ser?o apresentados nos sábados 27 de junho e 4 de julho, às 21 horas, no Instagram dos atores: @emebarbassa e @davi_tostes

Em entrevista à CELINA, a diretora, que é de Ribeir?o Preto, em S?o Paulo, fala sobre o projeto, as transforma??es na arte durante a pandemia, representatividade e feminismo.

CELINA: Como surgiu a ideia de 'Phantasmagoria'?

EME BARBASSA: O país estava em uma situa??o muito difícil, a gente sem poder estar no palco, eu tinha uma apresenta??o marcada e de repente tudo aconteceu e foi um baque. Primeiro senti que tinha uma press?o em cima da gente para produzir e ficar ativo e eu n?o queria fazer isso. Acho que a resistência dos artistas tinha que ser a n?o produ??o naquele momento. Mas ficar sem fazer nada estava me deixando deprimida, e em uma conversa com o Davi ele prop?s fazermos uma live. Primeiro eu n?o quis, porque vejo as pessoas usarem as lives como um paliativo para suprir uma ausência. Mas ele prop?s que a gente fizesse um estudo dessa linguagem e deu a ideia de encenar um término de namoro por chamada de vídeo. Fizemos a primeira vez sem falar nada para ninguém e foi um sucesso, as pessoas n?o sabiam o que estava acontecendo, come?aram a surtar, mandar mensagens. Vimos que foi muito legal e decidimos continuar a escrever isso, continuando pelos temas de vulnerabilidade e da masculinidade tóxica e chamando outros atores.

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De onde vem esse nome?

Phantasmagoria era um tipo de teatro de terror praticado no século XIX em que se projetavam imagens de dem?nios, esqueletos e fantasmas para espantar o público. Resolvi usar esse nome para refletir o que seriam esses fantasmas e esqueletos que a gente esconde hoje. E cheguei aos temas: machismo, transfobia, racismo, masculinidade tóxica, vulnerabilidade.

A atriz, dratamaturga e diretora de teatro Eme Barbassa, de 38 anos Foto: Lisa Cristine
A atriz, dratamaturga e diretora de teatro Eme Barbassa, de 38 anos Foto: Lisa Cristine

 

O projeto mistura a linguagem do teatro com o audiovisual?

Sim, a gente está misturando as linguagens: essa coisa do ao vivo do teatro mas também uma coisa da TV e das séries que é a continua??o dos episódios e por ser uma linguagem audiovisual. A gente apelidou de teatro de rua digital, porque entra quem quer e você está totalmente exposto ao público, isso remete ao teatro de rua. O Instagram n?o é um espa?o positivo para expor a vulnerabilidade, as pessoas mostram uma imagem editada de si mesmo e a gente decidiu ir na contram?o e usar a linguagem das lives para expor as vulnerabilidades.

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A arte está se reinventando durante o isolamento, por meio das redes sociais?

Sendo muito sincera acredito que ainda n?o é uma reinven??o de linguagem. Acho que est?o usando as lives ou pe?as virtuais como paliativos, poucos grupos est?o estudando a linguagem. Se amanh? achar uma vacina e liberar eu fico com medo: será que os grupos que est?o tateando essas linguagens do teatro virtual v?o continuar, ou as redes v?o ser abandonadas? Essa pode ser uma ferramenta para alcan?ar pessoas que n?o têm acesso ao teatro. Alguns falam comigo agradecidos, porque nunca tinham ido no teatro, as cidades deles n?o têm. é democrático quando a gente entra no Instagram para fazer isso de gra?a e levar a arte para lugares em que o teatro n?o chega.

Um dos temas da obra é a masculinidade tóxica. Essa é uma quest?o importante para a sociedade debater?

é um dos principais temas que temos que discutir. Vemos que o movimento feminista foi e é muito importante para as mudan?as estruturais na sociedade. Mas, em contrapartida, nunca houve uma conscientiza??o ou movimento dos homens. Eles n?o refletiram sobre seus papéis. Se observar uma mulher de 50 anos atrás e uma de hoje, elas mudaram muito. Já o homem ainda é muito parecido. O tema da masculinidade tóxica é importante para sociedade como um todo, porque ela n?o só afeta as mulheres, mas também aos homens. Estudamos muitos documentários, como o "The Mask You Live In", e decidimos trabalhar esse tema de maneira contemporanea, sinuosa, porque n?o gosto de teatro panfletário. O tema nunca é falado, mas é mostrando como os homens agem com as mulheres, suas expectativas, trabalhando de maneira a levar a reflex?o através da cena.

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Você disse que n?o interpretaria essa personagem se fosse dirigida por outra pessoa. Falta representatividade para mulheres gordas no teatro e no audiovisual?

Acho que sim, é um movimento que a gente tem que come?ar a cobrar. Temos visto um movimento de mulheres negras cobrando isso no audiovisual e nas artes, que eu eu apoio totalmente, e temos visto mulheres trans cobrando representatividade também. Mas que personagens mulheres gordas interpretam no audiovisual, que n?o giram em torno dela ser gorda? Eu queria ver personagens em que simplesmente essas mulheres existam. Claro que dificuldades aparecem, mas que n?o girasse toda a trama em volta disso. E o mesmo com uma pessoa negra, com uma mulher trans. Eu n?o toco nessas palavras em cena, e nem quero. Quero discutir no campo das práticas. Acho que chegamos em um momento em que n?o bastam mais discursos. A gente precisa radicalizar a a??o.

Acredita que ainda falta espa?o no feminismo para essas quest?es?

Acho que chegamos em um momento em que o feminismo precisa entender que n?o está falando exclusivamente das mulheres biológicas. Esse feminismo uterino, que está sendo muito falado agora por causa do pronunciamento da Angela Davis apoiando as mulheres trans. A gente precisa radicalizar a luta contra esses binarismos e a naturaliza??o das linguagens e identidades. N?o quero que isso vire uma briga entre mulheres negras e brancas, gordas e magras, cis e trans. Isso n?o é interessante. Para mim é interessante agir em termos práticos.

Quando eu assumo essa personagem sendo uma mulher gorda e trans isso é propor prática e n?o discurso. Porque o discurso vai na água, mas as práticas ficam e podem mudar o olhar das pessoas sobre você. Quando estou aqui dando essa entrevista, eu penso que as coisas est?o mudando. O mundo n?o vai mais aceitar certas condutas. A gente precisa acompanhar esse mundo. Mulheres trans morrem com 37 anos e eu tenho 38, estou conseguindo me salvar. Mulheres gordas estavam renegadas a papéis c?micos, eu estou protagonizando uma história de amor. Acho que isso é resistir de maneira plural para além dessa estrutura binária, velha e de uma militancia esvaziada.

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